Créditos: Sala Secreta News / Reprodução da capa do álbum “A Nação Quer A Verdade”

Nos anos 1980, quando o hip-hop ainda dava seus primeiros passos no Brasil, o Duck Jam e Nação Hip Hop ajudaram a construir os alicerces do rap nacional.

Em uma época em que grande parte das músicas eram voltadas ao entretenimento, o grupo se destacou por abordar temas sociais e políticos em suas composições.

Duck Jam e Nação Hip Hop, formado inicialmente por Duck Jam, Neno, Nidas e Marcelo Gordinho.

Segundo o próprio Duck Jam, o nome duplo seguia uma prática comum da época, quando muitos grupos destacavam o DJ separadamente dos MCs, embora todos integrassem um único projeto.

“Nessa época tinha muito desse lance do DJ ter um nome separado do cantor, do grupo, então a gente meio que veio nessa ideia e tal.”

Duck Jam e Neno se conheceram no colégio ainda jovens, estudavam juntos e compartilhavam da mesma afinidade e gosto musical, cada um tinha uma equipe de baile.

“A gente fazia baile e tal, eu tinha uma equipe e o Neno também, a gente meio que trocava discos e tal.”

Créditos: Reprodução Facebook / Produtor Duck Jam em seu estúdio

Em entrevista concedida ao Sala Secreta News, o DJ e produtor Duck Jam fala sobre a história de como foi o início do grupo na cena.

“A gente começou meio que brincando, fazendo rap.” – relembra

Segundo Duck Jam, o grupo foi criado de forma despretensiosa, sem ter algo planejado, .

“O Neno começou a brincar de escrever rap, fazia umas brincadeiras com o pessoal da escola, fez uma música de aniversário para a equipe de baile. A ideia era tirar uma onda mesmo.”

Influências da Black Music ao Rap

Influenciados pelo funk, soul e outras vertentes da black music, como James Brown e The Gap Band, surgia um novo ritmo que chamava a atenção, com artistas como Kool Moe Dee e Run DMC, lembra Duck Jam.

“Ninguém chamava de rap ainda né?”

A medida que se aprofundavam conheceram outros artistas e descobriram também artistas no Brasil, que também já faziam rap como Thaide e DJ Hum e Pepeu.

“Antes já tinha alguns grupos fazendo sucesso, mas o rap não tinha aquele ‘boom’ ainda.” – completa

O Surgimento de um Clássico

Foi nesse contexto que surgiu uma composição que mudaria a trajetória do grupo.

Escrita por Neno, “Colarinho Branco” apresentava uma abordagem incomum para a época, tratando de corrupção, desigualdade e privilégios das elites em um momento em que o rap brasileiro ainda dava seus primeiros passos.

Década de 80: Cenário Político e Mudanças na sociedade

A década de 1980 foi marcada por grandes mudanças no ambiente político do país, após 21 anos vivendo sob ditadura militar o Brasil elegia um presidente civil em março de 1985 com eleições indiretas.

Muitos movimentos populares influenciavam a sociedade naquele momento, como por exemplo as Diretas Já, entre os anos de 1983 e 84, com forte presença de artistas, pensadores, líderes e ativistas que pressionavam os militares a deixarem o poder.

No ano em que Colarinho Branco foi escrita por Neno, acontecia em Brasília a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã e apesar dos avanços democráticos conquistados naquele período, parte da população ainda demonstrava desconfiança à classe política.

Colarinho Branco: Uma Música Essencial e Poderosa

E assim nasceu a composição, quando Neno mostrou para Duck Jam a letra, automaticamente ambos entenderam que ali estava uma letra poderosa.

“A gente gravou uma fitinha, eu fiz um loop na fita (cassete) e tal, e ele cantou” – relembra Duck Jam

Como era uma letra mais bem elaborada com uma estrutura mais intelectual, pensaram nessa gravação para ver como ficaria em uma demo.

“Essa fita acabou caindo na mão de um cara de uma gravadora e ai ele se interessou, foi ai que a gente estruturou melhor o grupo.”

Perguntado como nasceu a ideia da música e se houve algum fato específico que inspirou a composição, Duck Jam ressalta a importância do olhar do compositor Neno sobre o momento que o país estava vivendo.

E acrescenta como foi a recepção do público ao ouvir a música.

“Então foi bacana, porque na época acredito que não tinha música falando de política, as músicas eram mais tirando onda e pra dançar.”

O lançamento de “Colarinho Branco” ocorreu em um período em que grande parte das produções do rap nacional ainda explorava temas ligados a diversão e ao cotidiano. A recepção positiva da música mostrou que havia espaço para composições com forte conteúdo social e político.

Perguntamos ao Duck Jam qual legado da música Colarinho Branco para as gerações atuais e ele adverte:

“Apesar do povo conseguir algumas conquistas, a corrupção ainda existe.”

E complementa.

“Enquanto existirem políticos que só pensam em benefício próprio, essa música vai fazer sentido durante um bom tempo.”

Coisas de Brasil: A Consolidação do Clássico

Assim como Colarinho Branco, outra faixa do grupo se consolidou como um clássico do rap nacional, “Coisas de Brasil”, faixa lançada no álbum Metamorfose de 1994, destacou novamente o grupo na década de 90 como um dos principais representantes da cena.

O álbum Metamorfose marcou uma evolução artística do grupo, aprofundando as críticas sociais e políticas que já apareciam em trabalhos anteriores.

Duck Jam nos lembra que Coisas de Brasil, apesar de falar sobre política trás uma sonoridade mais dançante para a música.

“Essa música você percebe que ela tem a ver com política, mas ela já em uma pegada mais pra cima, mais animada, mais dançante.”

Reforça a dualidade do tema, enfatizando coisas boas e ruins no cotidiano do brasileiro.

“Tem aquele lance que só o brasileiro tem né?”

Completa

“Mostra essa força de estar sofrendo mas sempre ter fé.”

Perguntamos ao artista quais problemas retratados na música permanecem ainda presentes no Brasil de hoje, Duck Jam ressalta os contrastes que até hoje são características da população, como a fome, a inflação, o Carnaval, o futebol, entre outras coisas.

Sobre um trecho da música ou um verso em especial, Duck Jam lembrou das pessoas que reclamam do país e que o grupo escreveu assim:

“Tá fazendo o que aqui? Vai encher o saco lá no estrangeiro”

A Importância e o Legado do Duck Jam e Nação Hip Hop

Duck Jam diz que é muito gratificante saber que as músicas que produziram continuam sendo lembradas e discutidas pelas novas gerações até os dias de hoje.

“Já tem mais de trinta, quase quarenta anos.”

E reforça sobre a importância dos jovens em escutar e conhecer as músicas, enfatizando sobre a estrutura e forma de cantar.

“A estrutura musical era bem diferente, a levada, o estilo.”

O artista completa que a letra é uma verdadeira aula de história.

Ao fim da entrevista perguntamos qual mensagem ele gostaria de deixar para nossos leitores e para quem está descobrindo o Duck Jam agora e ele nos respondeu assim.

“É legal o conhecimento, procurar conhecer a base, não só do nosso grupo mas do começo (de tudo) lá atrás.”

‘Vem’ – Trazendo outra dinâmica conceitual

O DJ enfatizou também que o grupo ganhou notoriedade com letras falando de política e problemas sociais mas que tinha um repertório variado de músicas que falavam sobre diversão, entretenimento, viagens e romances, entre outros temas.

“A gente lançou uma música chamada ‘Vem’, que fala mais de curtir a vida, viajar, se divertir.”

Essa música também teve boa repercussão, com ela o grupo atingiu um outro perfil de público, mostrando versatilidade e abrangência artística.

Duck Jam e Nação Hip Hop, sem dúvida contribuíram muito para o rap brasileiro e estão com o seu nome cravado na história da cultura hip hop, deixando um legado para as novas gerações conhecerem e usufruirem dessa experiência e vivência que eles trouxeram ao longo dos anos.

A cultura hip-hop agradece!

Assista a entrevista de Duck Jam para a Snake Pit TV

Instagram: https://www.instagram.com/popular/duck-jam-e-na%C3%A7%C3%A3o-hip-hop/

Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/3zoHq40kDrYJVeIbNqpMTE


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