Fex Bandollero no 77 Produz Studio / Créditos: Man Produções


Perfis | Sala Secreta News
Histórias que preservam a memória do Hip-Hop brasileiro.


De uma infância marcada por dificuldades na zona sul de São Paulo a uma trajetória de mais de três décadas dedicadas ao Hip Hop, Fex Bandollero construiu seu nome como MC, produtor musical, articulador cultural e uma das vozes mais respeitadas do rap de mensagem no Brasil.

Ao longo da caminhada, participou de projetos importantes como Pacto Mental, Cartel do Crime Organizado (C.C.O.), Filosofia de Rua e Reviravolta Máfia. Também desenvolveu um trabalho relevante nos bastidores da cultura através do 77 Produz Studio, contribuindo para a produção e desenvolvimento de diversos artistas independentes.

Em entrevista exclusiva ao Sala Secreta News, Fex relembrou o início da sua relação com o Hip Hop, falou sobre sua trajetória artística, refletiu sobre espiritualidade, independência e analisou os desafios atuais da cultura Hip Hop.

De uma infância difícil aos primeiros passos na música

Nascido e criado na zona sul de São Paulo, nas imediações da Vila Guarani e da estação Conceição do metrô, Fex cresceu em meio às dificuldades enfrentadas por muitas famílias da periferia paulistana.

O contato com o trabalho aconteceu cedo e as experiências vividas durante a infância se transformariam, anos depois, em matéria-prima para suas composições.

Sua conexão com o Hip Hop começou ainda nos anos 1980 através da coletânea “Hip Hop Cultura de Rua”, um dos registros pioneiros do rap nacional. Mas foi durante a adolescência que a cultura se tornou definitivamente parte de sua vida.

“Ter ouvido ‘Corpo Fechado’, do Thaíde e DJ Hum, com dez pra onze anos, foi o que abriu um portal na minha mente. Depois a convocação pra guerra foi com o disco Holocausto Urbano, do Racionais, já com 14 anos. Mas três anos depois, com ‘Se o Mundo Inteiro Pudesse Me Ouvir’, do Filosofia de Rua, a percepção do que eu queria fazer pro resto da minha vida estava moldada com todos os princípios”, relembra.

Em 1995, fundou o grupo Pacto Mental, seu primeiro projeto musical. Pouco tempo depois conheceu DJ Paul, do RPW, na tradicional Galeria 24 de Maio, no centro de São Paulo. Da parceria surgiram gravações, novas conexões e o convite para integrar o coletivo Cartel do Crime Organizado (C.C.O.), ampliando sua presença na cena underground paulista.

Construindo pontes e fortalecendo a cultura

Ao longo da carreira, Fex acumulou experiências em diferentes grupos e coletivos que ajudaram a moldar sua visão artística.

“Sou o que meus pares me fizeram ser. Todos eles contribuíram e contribuem para a minha percepção. Ninguém é algo sozinho. São vários capítulos de um mesmo livro que continua sendo escrito.”

Entre esses capítulos está o Reviravolta Máfia, coletivo criado a partir da necessidade de fortalecer a produção independente e criar caminhos próprios para lançamento de projetos.

“Surgiu da necessidade que tínhamos em organizar as coisas que já fazíamos. Precisávamos ter um selo independente onde pudéssemos lançar nossos projetos. Reviravolta Máfia nasce com esse objetivo.”

Além do Reviravolta Máfia, Fex também passou a integrar um dos grupos mais respeitados do rap nacional: o Filosofia de Rua.

“Filosofia de Rua é um marco no rap brasileiro. O grupo que mais fui fã e depois vim a ser parte integrante. Tenho muito orgulho disso.”

Anos depois, retornou ao projeto, participando também dos bastidores da produção musical.

“Na realidade quando voltei, já estava trampando também no projeto, produzindo e gravando eles. Dei uma pausa, somente. Ninguém deixa de ser aquilo que ama fazer.”

O 77 Produz Studio e o trabalho nos bastidores

Paralelamente à carreira como MC, Fex passou a desenvolver uma importante atuação como produtor musical.

À frente do 77 Produz Studio, tornou-se responsável por gravações, produção artística, mixagem e desenvolvimento de projetos de diversos artistas independentes.

Segundo ele, a necessidade de assumir múltiplas funções faz parte da realidade de quem trabalha com música independente.

“Ou você faz, aprende a fazer, ou você não consegue dar nenhum passo adiante.”

O artista destaca ainda a influência de nomes como Erick 12, Fábio Macari e Marrom SNT em sua formação técnica.

“Não é só apertar o rec pra gravar. É pensar o projeto, a ideia, a rima, o beat. O todo. Amo o que faço.”

Sobre o papel do estúdio, Fex resume:

“77 Produz Studio é o estúdio onde trabalho os meus objetivos artísticos e o de outros artistas também. É trampo, mas é missão também.”

Fé, questionamentos e reinvenção

Entre os anos de 2006 e 2007, Fex viveu uma experiência espiritual que o levou à conversão ao cristianismo, influenciando diretamente sua produção artística durante muitos anos.

Essa fase ficou marcada por trabalhos como o álbum “Vida Nova”, lançado em 2010, que apresentou uma abordagem voltada à espiritualidade sem abandonar as raízes do rap de periferia.

Confira o videoclipe da música Vida Nova de Fex:

Hoje, entretanto, o artista afirma viver um novo momento.

“Permaneço convicto da minha fé, mas não vivo e nem faço mais nada em nenhum sistema religioso. Estou recomeçando. Escrevendo muitas coisas. Seguindo a vida.”

A mudança também se refletiu em trabalhos recentes como “Que Deus Me Livre de Ser Crente” e “Até Quando?”, músicas que despertaram debates entre fãs e ouvintes.

Questionado sobre as inspirações por trás dessas composições, Fex foi direto:

“A hipocrisia vinda daqueles que dizem amar o próximo mas, como vimos e vemos constante, estão pouco se importando com eles. Muito discurso de ódio, preconceito e intolerância.”

O legado e os próximos passos

Após mais de 30 anos dedicados ao Hip Hop, Fex acredita que sua principal contribuição para a cultura está na dedicação e no amor pela arte.

“Minha contribuição maior é o amor e dedicação à arte que venho desenvolvendo há mais de 30 anos nessa cultura maravilhosa.”

Ao refletir sobre a evolução do rap nacional, destaca o crescimento e a profissionalização das diversas cenas espalhadas pelo país, mas faz um alerta:

“Acho que o desafio maior é a falta de interesse de grande parte em não se aprofundarem no estudo da cultura.”

E se pudesse conversar com o jovem Fernando que iniciava sua caminhada no rap?

A resposta resume bem sua visão atual sobre arte e trajetória:

“Moço, aproveite mais os processos. Ver as coisas terminadas é uma grande vitória, mas poder fazer e ter o prazer enquanto faz, é o motivo que leva à melhor e maior realização na arte.”

Redes Sociais e Youtube

https://www.instagram.com/fexbandollero

https://www.facebook.com/fexbandollero

https://www.youtube.com/@fexbandollero

Ouça Fex Bandollero:

Nota do editor: O autor desta matéria, Elias Santos (MC Don King), possui relação profissional anterior com Fex Bandollero. Ambos integraram o Reviravolta Máfia e participaram de diferentes projetos musicais ao longo dos anos. Fex também atuou como produtor musical do Sala Secreta e como diretor audiovisual do projeto Vivos.

Assista a entrevista de Fex Bandollero para o Projeto Vivos


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