Alvos da Lei – Créditos: Assessoria de imprensa / Reprodução

Em entrevistas exclusivas ao Sala Secreta, Dimenó, Fex Bandollero e Betão Pesadão relembram a história por trás do clássico dos Alvos da Lei

Por Elias Santos

Algumas músicas fazem sucesso tocando nas rádios e nas festas mas existem certas composições que atravessam gerações, que tocam as pessoas através de sentimentos profundos, que tocam a alma, que arrepiam a pele e faz rememorar momentos únicos e singulares.

Músicas que nascem de momentos tristes, difíceis e delicados acabam por transformar a dor de alguém em convergência de afeto a outras pessoas que mal se conhecem.

Quando falamos de composições atemporais, estamos tratando de obras que comunicam com várias gerações e despertam interesse em diferentes camadas da sociedade, produzindo empatia e conexão com o outro, é o caso da música “Us Heróis Não Morrem” do grupo de rap paulistano Alvos da Lei, vindos da zona sul de São Paulo.

Capa do álbum Seja Como Deus Quiser (2002) – Alvos da Lei

Lançada em 2002 no álbum Seja Como Deus Quiser, a faixa “Us Heróis Não Morrem” é uma dessas obras raras, ultrapassou a condição de uma simples canção para se tornar um dos tributos mais emocionantes da história do rap nacional.

A música produzida por Edi Rock, integrante dos Racionais MC’s foi concebida através do sampler da música “If Loving You Is Wrong I Don’t Want to Be Right” de Millie Jackson, faixa de 1974 do álbum Caught UP lançado pela gravadora Ace Records e nessa matéria o rapper Dimenó ressalta a importância do feeling do produtor para com o tema e a instrumental.

A história por trás da música ‘Us Heróis Não Morrem’

Mais de vinte anos depois, a música continua emocionando públicos de diferentes gerações e segue despertando emoção por onde passa.

O motivo vai muito além da qualidade musical.

Por trás do clássico existe uma história que poucos conhecem.

A obra foi escrita em homenagem a Gilmar, um dos fundadores dos Alvos da Lei, assassinado em 2002. O que começou como uma forma de lidar com a dor da perda acabou se transformando em um hino sobre amizade, memória, saudade e legado.

Para compreender a importância da música e da figura de Gilmar, o Sala Secreta reuniu depoimentos exclusivos de Dimenó, autor da música, Fex Bandollero, responsável pelo marcante refrão, e Betão, do grupo Brigada Sul, um dos amigos mais próximos do homenageado.

“Foi um irmão que eu não tive”

Ao falar sobre Gilmar, Dimenó não utiliza termos como parceiro ou colega de grupo.

Ele fala de um irmão.

Foto: Reprodução / Gilmar (Alvos da Lei)

Segundo ele, a trajetória do grupo pode ser dividida em duas partes: antes e depois da passagem de Gilmar.

“Gilmar foi um divisor de águas. Existe o antes e depois dele. Na real, foi um irmão que não tive. Ele ficava na parte da divulgação, dos eventos, da expansão do grupo. Eu ficava com a composição das músicas.”

Valores são bem mais importantes que sucesso e fama

A emoção aumenta quando reflete sobre o sucesso alcançado pela canção, demonstrando desapego com a fama e valorizando a amizade e convivência que mantinha com seu companheiro de grupo.

“Trocaria mil vezes o sucesso que veio com sua partida com a presença dele novamente entre nós. Pois o sucesso veio através da música ‘Us Heróis Não Morrem’ e às vezes isso me perturba.”

Para Dimenó, o destino dos Alvos da Lei poderia ter sido ainda maior caso Gilmar estivesse vivo.

“Se o Gilmar ainda estivesse aqui, com certeza estaríamos em outro patamar. Ele estava à frente do tempo.”

Sobrenatural: A música que nasceu em um único dia

Uma das revelações mais impressionantes da entrevista é sobre o processo de criação da música.

Não houve planejamento.

Não houve reunião.

Não houve rascunhos.

A letra simplesmente veio.

“No dia seguinte já me veio a letra na mente. Escrevi de uma só vez. Nem lapidei. Foi tipo sobrenatural, direto do Criador. Bagulho louco, sem explicação.”

Quando questionado sobre como foi o processo de composição, a resposta foi ainda mais direta.

“Não foi pensado. Não foi discutido. Foi automático. Quando vi, já estava pronta.”

Talvez seja justamente essa espontaneidade que explique a força emocional da música até hoje.

Foto: Reprodução – Gilmar (Alvos da Lei)

Poucas palavras mas que resumem tudo da melhor forma

Ao ser perguntado sobre qual trecho melhor representa a mensagem da obra, Dimenó escolheu uma frase simples, mas muito poderosa:

“Agoniza, mas não morre.”

Mais do que um verso, a frase se tornou símbolo da resistência emocional presente na música.

A dor permanece.

A saudade permanece.

Mas a memória continua viva.

Quando o sentimento é verdadeiro a música flui naturalmente

Apesar da intensidade da composição, Dimenó afirma que jamais imaginou que a música se tornaria um dos maiores clássicos do rap nacional.

“Nunca pensei nisso. Nunca imaginei que fosse se tornar um clássico.”

Ainda assim, ele reconhecia que havia algo especial naquela gravação.

“Sabia que tinha potencial. O beat era foda. O Edi Rock foi cirúrgico. O refrão também. O Féx reproduziu todo sentimento que eu queria externar. E o final com o Nego Chic arrepia até hoje.”

O resultado foi uma combinação rara entre letra, interpretação e produção musical.

Fex Bandollero: “Perdemos um guerreiro real” ressalta

Uma das marcas registradas de “Us Heróis Não Morrem” é seu refrão emocionante, interpretado por Fex Bandollero.

Em conversa com o Sala Secreta, o artista relembrou a importância daquele momento.

Segundo o artista, participar da gravação significou muito mais do que colaborar com uma música.

“Pra mim foi importante demais poder participar deste clássico do rap nacional, com o grupo Alvos da Lei, o qual já admirava há muito tempo. Mas havia também o sentimento de estar fazendo algo em memória do Gilmar. Uma homenagem perfeita.”

Fex também teve a oportunidade de conhecer Gilmar pessoalmente e guarda lembranças marcantes do integrante dos Alvos da Lei.

“Era um cara muito correria, olhava no olho das pessoas, escutava e se posicionava.”

Além da atuação na música, o rapper destaca o envolvimento de Gilmar em diversas causas sociais.

“Também era muito articulado dentro da cena, em várias frentes: música, ações sociais beneficentes, combate à violência policial, entre outras.”

Para Fex, a história de Gilmar merece continuar sendo contada para as novas gerações.

“Perdemos um guerreiro real. Deveria ser mais lembrado e citado às novas gerações, assim como outros que já se foram.”

Mais de duas décadas depois do lançamento da música, o depoimento reforça a mensagem central de Us Heróis Não Morrem: algumas pessoas permanecem vivas através do impacto que deixaram na vida dos outros.

Betão Pesadão (Brigada Sul): “Foi um irmão de vida pra mim”

Se Dimenó trouxe a perspectiva do amigo e parceiro de trabalho e Fex a visão de quem participou diretamente da gravação de “Us Heróis Não Morrem”, Betão, do grupo Brigada Sul, oferece um olhar ainda mais íntimo sobre quem era Gilmar fora dos palcos.

Amigos inseparáveis durante anos, os dois construíram uma relação que ultrapassava a música e se confundia com a própria vida cotidiana.

Mais de duas décadas após sua partida, a emoção ainda é evidente em cada lembrança.

“Foi um irmão não de mãe ou de sangue, mais um irmão de vida.”

Mesmo após 24 anos, a ausência ainda dói.

“Tem 24 anos que ele faleceu e até hoje eu sinto falta dele”.

Betão relembra o cuidado que Gilmar tinha com ele.

“Era um cara que todos os dias às seis horas da tarde me ligava. – E ai Betão já comeu, como você tá e tal? E todos os dias a gente se via.””

Uma das passagens mais emocionantes do depoimento revela que o trauma permanece vivo.

“Até hoje eu passo onde ele foi assassinado e não consigo passar onde ele caiu. Eu passo o carro quase na contramão, mas não passo naquele lugar.”

Segundo Betão, Gilmar era sonhador mas convicto em seus objetivos, assim como Fex pontuou também se referiu ao amigo como um guerreiro verdadeiro e sincero em sua caminhada. Não economizou palavras ao falar do amigo.

“Ele era bom de coração. Ajudava todo mundo. Se tivesse que tirar a própria roupa para te dar, ele te dava.”

E completa.

“E ele era foda no sonho dele, dentro da cultura hip hop ele era guerreiro, verdadeiro nas palavras, cantava o que vivia mesmo, não bebia, não fumava, ele era embaçado, nenhum de nós tinha nenhum vício naquela época.”

Segundo ele, Gilmar era conhecido e respeitado em toda a cena.

“Quem do rap não conhecia o Gilmar? Todo mundo conhecia.”

O dia em que tudo mudou

Betão também recorda o momento em que ouviu uma música dos Alvos da Lei tocando no rádio após a morte do amigo.

Foi um instante de sentimentos contraditórios.

Orgulho e tristeza.

Alegria e dor.

“Foi ali que eu vi que meu amigo tinha conseguido alcançar o sucesso com a sua música tocando na rádio. Só que ele não estava mais entre nós.

A lembrança daquele dia continua viva.

“O sonho dele tinha sido interrompido”.

Ao recordar o momento em que recebeu a notícia da morte de Gilmar, a emoção ainda é evidente.

“Foi uma das piores notícias que recebi na minha vida”.

Quem foi Gilmar?

Os depoimentos reunidos pelo Sala Secreta ajudam a construir um retrato consistente de quem foi Gilmar dos Alvos da Lei.

Mais do que rapper.

Mais do que integrante dos Alvos da Lei.

Mais do que inspiração para uma música.

Gilmar foi:

  • Cofundador do Alvos da Lei;
  • Responsável pela divulgação e expansão do grupo;
  • Articulador de projetos e ações sociais beneficentes;
  • Defensor da comunidade contra violência e opressão do estado;
  • Referência para diversos artistas da cena Hip Hop;
  • Amigo leal e respeitado por todos que conviveram com ele.

Para Dimenó, ele foi um irmão.

Para Fex Bandollero, um guerreiro real.

Para Betão, um irmão de vida.

Quando a música se conecta com a dor do outro

Ao longo de mais de duas décadas, Dimenó ouviu inúmeras histórias de pessoas que encontraram conforto na música.

Histórias diferentes.

Dores diferentes.

Mas um sentimento em comum.

“Todas têm um sentimento diferente que no final se une em um só canto por justiça, perdão, culpa, saudade e arrependimento.”

Segundo ele, existe uma cena que se repete até hoje nos shows e apresentações do Alvos da Lei.

“Em todo evento tem sempre alguém que chora quando cantamos ‘Us Heróis Não Morrem’.”

Talvez porque a mensagem da música tenha ultrapassado a homenagem a Gilmar e se conectado com a perda de pais, mães, irmãos, filhos, parentes ou amigos.

Pessoas que foram e são heróis na vida de alguém.

O legado permanece mais vivo do que nunca

Ao final da entrevista, Dimenó deixou uma mensagem que talvez represente o verdadeiro legado da música.

Uma reflexão sobre responsabilidade, família e exemplo.

“Honre seus pais. Sejam pais dos seus filhos. Não permita que o mundão tome conta dos nossos. Não permita que os exemplos dos filhos e filhas sejam buscados nas ruas.”

E conclui:

“Assuma seu papel. Deixe um legado onde os que vierem após possam seguir, compartilhar e se orgulhar. Não importa como começa e sim como vai terminar a jornada.”

Mais de vinte anos depois de seu lançamento, “Us Heróis Não Morrem” continua provando que algumas músicas ultrapassam o entretenimento.

Elas se transformam em memória.

Em homenagem.

Em amizade.

E principalmente em prova de que algumas pessoas nunca partem completamente.

Enquanto suas histórias forem lembradas, seus ensinamentos compartilhados e seus nomes pronunciados, elas continuam vivas.

Como diz o próprio título da música:

Os Heróis não morrem.

#ClássicosDoRapBR

Créditos: Reprodução – Alvos da Lei

Ouça a música Us Heróis Não Morrem

Conheça a letra da música: https://www.letras.mus.br/alvos-da-lei/os-herois-nunca-morrem/

Canal Oficial no Youtube do grupo Alvos da Lei: https://www.youtube.com/@alvosdaleioficial

Siga o Alvos da Lei no Instagram: https://www.instagram.com/alvosdaleioriginal/

Sobre a série “Clássicos do Rap BR”

O “Clássicos do Rap BR” é um projeto do Sala Secreta News dedicado a preservar a memória do Hip Hop brasileiro por meio de pesquisas, documentos, entrevistas exclusivas e relatos dos artistas que ajudaram a construir essa história. Mais do que revisitar músicas, a série busca registrar o contexto, os bastidores e o legado de obras que continuam influenciando gerações.


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