
Depois de emocionar gerações de ouvintes e deixar o FM paulistano em maio, a Rádio Eldorado retorna em outubro. Para quem cresceu ouvindo sua curadoria, o reencontro representa mais do que o retorno de uma frequência: é a volta de uma maneira de ouvir, descobrir e contar histórias
A Eldorado me ensinou que, por trás de uma música, existe uma história. E talvez seja justamente por isso que tenho curiosidade de entender o caminho da música desde sua concepção.
Por Elias Santos | Sala Secreta News
Estava em meu carro, estacionado em uma rua de São Paulo, ouvindo a programação da Rádio Eldorado, quando ouvi a notícia de que a emissora estava encerrando as atividades. Era fim de tarde.
A notícia me pegou de surpresa.
Não era simplesmente a ausência de uma estação de rádio tradicional. Era como se uma parte da paisagem sonora de São Paulo tivesse desaparecido.
Durante décadas, a Eldorado construiu uma relação que vai muito além da transmissão de músicas e notícias. A rádio tinha um papel de ir além do óbvio. Tinha profundidade, personalidade e carisma.
Mas, após quase 70 anos de história, no dia 14 de maio, a Eldorado encerrou sua trajetória na frequência 107,3 FM. No dia seguinte, outra emissora iniciou sua programação no mesmo dial, deixando um vazio entre os ouvintes apaixonados pela rádio – assim como eu.
Talvez poucas pessoas saibam, mas a Eldorado também está entre as referências que ajudaram a formar a própria identidade do Sala Secreta News.
Sempre tive grande admiração pela maneira como a emissora tratava a música e pela forma como seus apresentadores e programadores demonstravam amor pelo próprio ofício.
Com base na experiência que tive como ouvinte, fui me aperfeiçoando como leitor, pesquisador, historiador e apreciador musical. Aprendi que uma curadoria bem realizada pode proporcionar um material robusto e profundo sobre aquilo que está sendo estudado.
Na Eldorado, uma canção não parecia existir simplesmente por si só.
Cada música podia vir acompanhada de contexto, informação, curiosidades e, principalmente, de uma preocupação em proporcionar ao ouvinte uma experiência que ultrapassasse os poucos minutos de duração de uma faixa.
Era possível ouvir uma música e, ao mesmo tempo, conhecer um pouco mais sobre quem a criou, sobre o período em que foi gravada, sobre sua importância ou sobre detalhes que poderiam passar despercebidos em uma primeira audição.
Isso me ensinou algo que carrego até hoje: música não é apenas música. Ela também é memória, contexto, história e cultura.
E é justamente essa maneira de tratar a arte que influenciou a forma como escolhi seguir com o Sala Secreta News.
A proposta de olhar para uma música, um artista, um disco ou uma manifestação cultural e tentar compreender o que existe por trás daquela obra também nasce dessa experiência.
Não se trata apenas de informar que algo aconteceu. É preciso entender por que aconteceu, quem está envolvido, qual é a história e o que aquela obra representa.
Talvez seja por isso que uma rádio tenha deixado uma marca tão profunda em mim.
E talvez seja também por isso que sua despedida tenha doído tanto.
Assim como eu, várias pessoas se manifestaram sobre o encerramento da programação da Rádio Eldorado. A reação tomou conta das redes sociais, ganhou as ruas de São Paulo e chegou a um abaixo-assinado que reuniu mais de 11 mil assinaturas pela permanência da emissora.
E hoje, alguns meses depois daquela despedida, ao abrir meu instagram, me deparei com um vídeo do diretor artístico da Rádio Eldorado, Emanuel Bonfim, e da apresentadora Roberta Martinelli, trazendo a notícia do retorno da rádio, agora em novo dial, o 107,9 FM.
A volta da rádio acontecerá no dia 7 de outubro em uma nova fase construída em parceria com a Porto. Aproximadamente 90% da programação anterior será preservada, mantendo nomes, vozes, curadoria e programas que ajudaram a construir a identidade da emissora. A Eldorado também ampliará sua presença no YouTube, nas redes sociais e nas plataformas digitais do Estadão.
Confesso que, ao assistir ao anúncio da volta, tive uma sensação difícil de explicar, mas que por alguns segundos me transportou para aquele fim de tarde dentro do carro. Mas, agora o sentimento é de felicidade e não de tristeza.
Marcas como a Eldorado são vitais para a construção de uma sociedade que carrega história, pertencimento e identidade. Sua importância cultural se manifesta por sua própria existência e o seu legado nos ensina que a arte e a comunicação são a força motriz dessa engrenagem.
Fontes: Folha de S. Paulo, Estadão
Texto: Elias Santos | Sala Secreta News





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