Créditos: Foto por Felipe Romão / Formação clássica do grupo Filosofia de Rua da esquerda para a direita: DJ Man, Canhoto, Braiam e Big Ugli C.I. (In Memorian)

Algumas músicas atravessam gerações porque retratam uma época. Outras permanecem porque traduzem sentimentos que nunca deixam de existir. Lançada em 1996 pelo Filosofia de Rua, “Histórias do Coração” pertence a esse segundo grupo. O que poucos sabiam é que, por trás de uma das letras mais sensíveis do rap nacional, existia uma história que nem o próprio autor havia compreendido completamente.

O nascimento de um grupo que leva a mensagem a sério

Com o crescimento desordenado das periferias e o aumento da violência urbana, o rap nacional assumiu um papel de cronista da realidade que permeava os guetos urbanos, registrando em versos denúncia, preconceitos, vivência e injustiças que desencadeavam em várias famílias, na década de 1990.

Nesse cenário, nasce em 11 de Setembro de 1991, o grupo de rap Filosofia de Rua que teve na sua segunda formação com DJ Man, Ugli Ci (in-memorian), Canhoto e Braiam, a formação clássica mais conhecida pelo público.

Ficaram conhecidos por letras pacifistas e de autoestima com forte apelo social e crítico da sociedade, se destacaram com músicas como “A Cor da Pele Não Influi em Nada“, que saiu na coletânea Movimento Hip Hop em 1993 e “Se o Mundo Inteiro Pudesse Me Ouvir” do álbum Valeu a Experiência de 1994, ambos lançados pela gravadora Rhythm and Blues.

Quando surgiu o clássico “Histórias do Coração”

Em 1996, após o lançamento do álbum Da Rua, pela gravadora Paradoxx Records – se destacaram com músicas como “Histórias do Coração”, consolidando-os na cena durante a década de 90, com destaque também para as faixas como “A Noite de Ontem”, “Paz Interior” e “Se Não Fosse Você”.

Capa do álbum “DA RUA” – 1996 / Gravadora: Paradoxx Music – Grupo Filosofia de Rua

Nesse período além dos quatro integrantes o grupo tinha em sua formação Edi – que tocou gaita na música e Nego Sam, que fizeram parte do grupo durante a  turnê do álbum.

Mais do que uma canção, a faixa Histórias do Coração se consolidou como um testemunho social sobre a ausência, a dor e a esperança.

A História por trás da canção, a dor que deu origem a música

Em entrevista exclusiva ao Sala Secreta News, conversamos com DJ Man, autor da letra, que nos emocionou contando em detalhes a história por trás do clássico.

“Ela nasce de uma dor muito pessoal minha”

A Roça, o ferro a carvão e a fralda

O artista nos contou que perdeu sua mãe biológica aos três anos de idade, sendo criado por sua tia (que considera sua mãe) com muito cuidado, amor e acolhimento, mas que entre 19 e 20 anos de idade, se deparou com uma crise existencial pois não tinha quase nenhuma informação sobre ela, restando somente uma única lembrança.

“Me lembro dela na roça passando minha fralda em um ferro a carvão”

Conta que moravam no interior em uma roça – área rural, e sua mãe colocava a fralda nas suas orelhas para suavizar a dor de ouvido que ele sentia, sua única memória até então.

Ouvido Hyldon: Sábado e Domingo

Neste período que procurava respostas, não sabia se passava por um momento de isolamento ou depressão, mas relembra que ao escutar a música “Sábado e Domingo”, do cantor baiano Hyldon, logo se deparava pensando nela e na dor que estava sentindo.

“A letra fala sobre relacionamento, sobre amor, mas o refrão me tocava muito”

E ao ouvir a música veio a inspiração para escrever a letra.

“Eu não queria falar sobre a minha mãe na música, e sim sobre aquele sentimento”

A ideia era tentar traduzir aquela dor de uma forma que as pessoas entendessem e se identificassem com o que estava passando.

“A dor pelo vazio de não saber o que estava acontecendo”

Quando começou a compor a letra da música, tentou traduzir em várias situações aquela dor pessoal que sentia e por isso que já na introdução da letra escreve assim:

“Eu falo pelos pais que perderam os seus filhos e pelos filhos que perderam seus pais”- trecho da música

Na segunda metade da década de 90 o rap estava construindo uma identidade diferente de outros momentos.

Desde o início era nítido que a abordagem do Filosofia de Rua, transitava para além das críticas sociais, eles tinham uma visão reflexiva e profunda nos temas que retratavam.

“A gente fazia música porque acreditava que podia provocar uma reflexão”

Quando a mudança e evolução trazem responsabilidade

Naquele período saíram de uma gravadora pequena e assinaram com uma gravadora de médio porte, tinham várias músicas para gravar no próximo álbum.

Recorda que algumas músicas deste trabalho tinham sua preferência como “Paz Interior”, “Valores da Vida” e “Aquela noite de ontem”.

Tinham a preocupação de manter o mesmo nível dos trabalhos anteriores ou até mesmo de superar, visto o alcance e o reconhecimento que tinham até o momento.

A mística por trás da letra e da música

Sobre o processo de gravação, Man entende que o produtor musical Gertz, responsável por produzir a música, teve o cuidado de saber que aquela composição precisava de um espaço para respirar e construir arranjos, caminhando junto com a letra, sem disputar nenhuma tensão entre a música e a voz.

“Hoje, ouvindo novamente, percebo que boa parte dessa emoção, passa pela sensibilidade do Gertz”

Analisando a música hoje, também percebe que ela possui um roteiro com desaparecimento, busca, desespero, crítica, justiça e a mídia em si.

Ao falar sobre a mídia o cantor ressalta que tentou frisar na letra sobre a exploração dos meios de comunicação sobre a dor das pessoas, foi nesse período que houve muitos dos chamados “jornais sensacionalistas” na TV, no rádio e na mídia impressa.

“Virou fracasso da lei, ibope pra mídia” – trecho da música

Roteiro mostrando a saída

Em outro momento analisa que a música não termina de forma dramática e triste, ela dá um caminho.

“Ela leva a pessoa a um lugar completamente diferente do início da música”

E neste momento revela que não fazia a menor ideia que a música levava para esse caminho, no início da música ele escreve – “Eu falo pelos pais que perderam os seus filhos” e ao fim da música  o autor escreve – “Mas eles não se foram por completo”.

“Entrega uma esperança, um conforto, era o que eu queria ter naquela crise existencial”

O encontro da arte com o público

Ao ser questionado sobre como era a reação do público com uma letra escrita por ele tão intimista e ao mesmo tempo tão coletiva, qual era a sua visão nos shows do Filosofia de Rua.

Naquele momento ficava mais ao fundo do palco como DJ, e que Braiam e Ugli quem comandavam o público cantando a música, mas que nos bastidores as pessoas procuravam para comentarem de formas diferentes como a música as impactava.

“Essa música mexeu comigo”

E assim chegavam comentários dizendo que perderam pai, mãe, filho, amigos, que tinham parentes presos, cada um se conectava com a música de uma forma.

Resgatando vidas e alcançando lugares

Além disso vale ressaltar um fato relevante, a gravadora disponibilizou um anexo no encarte das primeiras cinco mil cópias do disco, fotos de crianças desaparecidas e uma ONG do Rio de Janeiro entrou em contato na época.

“Na ligação disseram que encontraram uma criança por causa do encarte”

Sobre o alcance da música, diz que não imaginava que a música tomaria essa dimensão pois para ele a letra funcionava como um canal terapêutico, uma válvula de escape de uma dor que ele sentia.

A criação do videoclipe e a veiculação na MTV Brasil

Videoclipe Histórias do Coração – Filosofia de Rua – Dirigido por Léo Corvo (Paradoxx Records) 1996

Quando o álbum ficou pronto, logo perceberam que Histórias do Coração, tinha um grande potencial e decidiram fazer o videoclipe, porque a abordagem do tema ganhou grande importância, até mesmo por coincidir com um período marcado pelas consequências de episódios traumáticos como as Chacina de Vigário Geral e da Candelária que abalaram o país alguns anos antes.

O clipe produzido por Léo Corvo, foi um divisor de águas na época, pois o apelo visual era muito forte.

Tiveram diversos problemas de liberação de recursos pela gravadora, mas quando o clipe saiu o retorno foi instantâneo pois o grupo ganhou dimensão nacional com a veiculação do clipe pela MTV Brasil (único canal de TV a veicular clipes de rap na época).

“Tem lugares que a gente nunca fez show que recebo mensagens falando que fomos muito influentes para elas”

Trinta anos depois, um novo olhar

Após trinta anos de composta, Histórias do Coração é mais do que uma música, na visão do autor.

Representa um momento importante da vida que conseguiu transformar uma dor íntima em algo que pudesse acolher pessoas.

“Com o tempo eu fui percebendo que a música nunca foi minha”

Ao perceber ao longo de sua trajetória que cada fã que interage com ele carrega sua própria história, tendo a música como referência, Man entende que talvez seja isso que faça com que a música se perpetue através do tempo.

“Quando escrevi estava tentando compreender minha própria perda”

Mas, hoje ele pensa muito nas pessoas que se identificam e se conectam com a música.

Cada uma com a sua história de vida e ressalta perceber que sua experiência singular encontra significado na vida das pessoas.

O segredo guardado a sete chaves

Refletindo sobre a trajetória de Histórias do Coração, diz que talvez o sentido maior da canção é a mensagem que mesmo com o sentimento de perda das pessoas que amamos, sua memória permanece viva dentro de nós.

“Na época era uma tentativa de responder uma pergunta e hoje ela é praticamente a resposta”

Man entendeu que a resposta que tanto procurava estava na sua própria criação, quando escreveu a música inconscientemente ele respondeu a si mesmo a pergunta que tanto o incomodava durante anos.

“Eu tô querendo saber onde ela está e a música me diz que ela está dentro de mim, cara” – desabafa

Neste momento, a voz embarga, o silêncio toma conta do espaço e em seguida há um respiro profundo.

“Eu fiz a música pra minha mãe e eu não falo dela na música” completa

Histórias do Coração é uma música que emociona e é carregada de uma letra densa e emotiva, mas a profundidade em que o autor relata como foi todo esse processo de maturação, desde sua concepção até a sua reflexão final após tanto tempo, deixa a música ainda mais relevante e poderosa para quem é apaixonado por música.

O legado: quando a mensagem transcende o tempo

A mensagem da música hoje tem um significado mais forte para Man, segundo o artista a mensagem de Histórias do Coração atualmente se tornou mais poderosa e relevante devido a própria condição humana.

“A mensagem principal nunca foi sobre mim”

Faz uma reflexão sobre o momento atual que estamos vivendo, como as pessoas registram tudo, se conectam através de redes sociais e tecnologia, mas perderam a dedicação de encontros presenciais.

Sábado e domingo são dois dias sagrados

Relembrando sobre o trecho da música que valoriza o sábado e o domingo como momento de convivência ganha um significado adicional nesse contexto e lembra da importância de estarmos presentes ainda.

“As pessoas estão online, conectadas, mas ao mesmo tempo isoladas”

Perguntamos a ele se hoje mudaria algo na música.

“Acho que quando a música é verdadeira, ela pertence ao tempo”

A música retrata exatamente aquilo que ele vivia e sentia naquele momento e que a essência dela talvez seja o combustível que a faz ser ouvida até os dias de hoje.

No início o grito da dúvida e no fim a calmaria da resposta

Ao fim da entrevista, perguntamos se ele gostaria de acrescentar algo ou deixar uma mensagem.

Ressalta ainda a importância de a música não ser datada, não possuir em seu corpo nenhum fato histórico, datas, nomes de bairros, nomes de pessoas, nomes de governos, entre outros aspectos e completa dizendo que a música não procura culpados.

“Ela termina oferecendo um caminho” – completa

O ponto alto da entrevista foi quando Man, revelou que somente na entrevista percebeu que a música trouxe a resposta que tanto procurava e talvez isso tenha sido a barreira que ele protelava de acessar com profundidade o tema.

“Isso me tocou muito forte, o começo da música é uma pergunta silenciosa e o final tem essa resposta”

O cantor fala dos últimos versos da letra, que é recitado:

“Elas moram num lugar guardado por ti a sete chaves, num lugar muito íntimo
No seu coração”

Trinta anos depois “Histórias do Coração” segue emocionando

Trinta anos depois, “Histórias do Coração” continua emocionando porque nunca pertenceu apenas ao Filosofia de Rua.

Ela pertence às famílias que aprenderam a conviver com a ausência, aos amigos que preservam lembranças e a todos aqueles que descobriram que o amor permanece vivo na memória.

Talvez seja esse o maior legado da canção: mostrar que algumas pessoas partem, mas nunca deixam verdadeiramente de existir.

Ficha do Clássico “Histórias do Coração”

  • Ano de Lançamento: 1996
  • Álbum: Da Rua
  • Formação do grupo: DJ Man, Canhoto, Braiam, Big Ugli C.I., Edi e Nego Sam
  • Autor: DJ Man
  • Produção Musical: Gertz
  • Gravadora: Paradoxx Music
  • Videoclipe: Léo Corvo (Direção)

Sobre a série “Clássicos do Rap BR“
O “Clássicos do Rap BR” é um projeto do Sala Secreta News dedicado a preservar a memória do Hip Hop brasileiro por meio de pesquisas, documentos, entrevistas exclusivas e relatos dos artistas que ajudaram a construir essa história. Mais do que revisitar músicas, a série busca registrar o contexto, os bastidores e o legado de obras que continuam influenciando gerações.

#ClássicosDoRapBR


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