Créditos: Reprodução – trecho de videoclipe Vai Explodir – Pavilhão 9

Por Elias Santos
Sala Secreta News

Em abril de 1998, as ruas da Vila Joaniza, na zona sul de São Paulo, se transformaram em cenário para a produção do videoclipe “Vai Explodir” do Pavilhão 9, registrando um momento singular para a banda.

Na gravação reuniram-se os integrantes do Pavilhão 9, o rapper Black Alien, que participa da música, a crew Jabaquara Breakers, liderada pelo B-Boy Moisés, além do grupo Primeiro Suspeito e de moradores do bairro que participaram como figurantes.

Quase três décadas depois, revisitar aquele dia também significa revisitar um período em que o rap, o hardcore, a cultura urbana e o audiovisual começavam a ocupar novos espaços na cultura brasileira.

Há uma particularidade nessa história que torna esse registro ainda mais especial, eu estava lá.

Pude presenciar as gravações ao vivo, na época pertencia ao grupo Primeiro Suspeito que abria os shows para a banda, inclusive participando da gravação do álbum na música “Retrato de São Paulo”, e apesar de não aparecer nas edições finais do clipe, concedi entrevista para a TV Cultura falando sobre a importância daquela produção.

Revisitar o clipe hoje, portanto, não significa apenas observar um registro histórico da banda. É também reencontrar uma parte da própria memória da cultura de rua paulistana dos anos 1990.

Naquele período, muitas dessas experiências aconteciam de maneira orgânica: grupos, DJs, breakers, MCs, bandas, crews e comunidades construíam seus próprios espaços e redes de circulação.

“Vai Explodir” acabou registrando parte dessa movimentação.

Além dos artistas, o Pavilhão 9 foi um dos pioneiros no Brasil a utilizar lowriders nos clipes – carros modificados combinando arte, engenharia e a cultura chicana.

Um detalhe interessante é que esses carros eram raríssimos no Brasil naquele momento, pertenciam a um dos primeiros clubes dedicados à cultura lowrider no país, então sediado na Moóca, em São Paulo.

A importância daquela gravação também foi registrada pela imprensa da época.

Um artigo publicado pela Folha de S. Paulo, ganhou destaque durante a semana de gravação do clipe, escrito pelo jornalista Daniel Castro que enfatizou a Vila Joaniza e os lowriders como destaques da produção.

Tenho o recorte do jornal até hoje, preservando aquele período mais do que uma lembrança e sim como um arquivo histórico de um momento marcante para a música, a cultura urbana, o audiovisual e a conexão com a periferia.

É justamente esse tipo de documento que permite reconstruir a história para além das informações que sobreviveram na internet.

O videoclipe também foi rodado em uma siderúrgica, onde a banda canta e toca, um cenário cinematográfico que se intercala com cenas de guerras e mortes extraídas do extinto jornal Notícias Populares que foram inseridas na edição do vídeo.

Dirigido por João Araújo, o videoclipe reforçou uma característica que acompanharia a trajetória do Pavilhão 9: o uso da música e do audiovisual como instrumentos de crítica social e política.

Indicado em 1999, a melhor videoclipe de rap pela MTV Brasil, juntamente com outros trabalhos como “Esse é o Meu País” da banda Câmbio Negroque levaram o prêmio, ” Casa Cheia”, do grupo Detentos do Rap, “Fogo na Bomba” do De Menos Crime e “Traficando Informação” do rapper MV Bill.

A indicação colocou o Pavilhão 9 entre os nomes de destaque do rap no principal prêmio de videoclipes da MTV Brasil naquele período.

A própria Folha de S.Paulo, ao apresentar os concorrentes do VMB 1999, registrou Pavilhão 9 e MV Bill entre os indicados da categoria de rap.

Para uma cena que durante muitos anos havia construído sua trajetória principalmente em espaços periféricos, rádios comunitárias, shows e circuitos independentes, chegar à MTV significava ocupar outro território.

Mas a grande conquista de Vai Explodir foi ter sido incorporada no filme “O Invasor”, dirigido por Beto Brant e protagonizado por Paulo Miklos (ex-Titãs), Mariana Ximenes, Marco Ricca, Alexandre Borges e a participação do rapper Sabotage.

A trilha sonora do filme também aproximou diferentes nomes da música urbana e alternativa brasileira, com participações de Pavilhão 9, Sabotage, Instituto, Tolerância Zero, Professor Antena e Paulo Miklos.

A faixa nasceu de uma manifestação musical do Pavilhão 9, porém, no filme, ela ganhou outra função: passou a dialogar diretamente com a narrativa e com o estado psicológico do personagem Ivan.

Atualmente a música continua fazendo parte do repertório dos shows da banda, mostrando a importância e relevância da faixa para o público atual e seus fãs tradicionais.

Após quase três décadas do seu lançamento a banda passou por algumas mudanças em sua formação, mas permaneceu com os dois vocalistas Rhossi e Doze seguindo o estilo rap e hardcore.

Quase três décadas depois, para quem esteve naquela gravação, revisitar as imagens também é uma forma de perceber o quanto o bairro mudou — e, ao mesmo tempo, quantas das contradições sociais daquele período permanecem presentes.

O verdadeiro legado de “Vai Explodir” talvez não esteja apenas em sua indicação ao VMB, nem somente na participação de Black Alien ou em sua presença em O Invasor.

Está na capacidade que a obra teve de atravessar diferentes linguagens e também de registrar as ruas da periferia de São Paulo, como colocou em destaque a Vila Joaniza.


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