DJ, beatmaker, jornalista, pesquisador e articulador cultural. Conheça a trajetória de Jair dos Santos, o Cortecertu, um dos nomes que ajudaram a construir e preservar a memória da cultura Hip-Hop brasileira.


Perfis | Sala Secreta News
Histórias que preservam a memória do Hip-Hop brasileiro.


Existem personagens fundamentais para a história do Hip-Hop brasileiro que raramente ocupam os holofotes.

Enquanto muitos ganharam reconhecimento pelos palcos e pelos álbuns, outros ajudaram a construir, registrar e preservar essa cultura nos bastidores. Cortecertu é um deles.


RAIO-X | CORTECERTU

  • Jornalista
  • Pesquisador
  • Bacharel em biblioteconomia
  • Editor e Revisor
  • Beatmaker
  • Produtor Musical
  • Letrista / Compositor
  • Assessoria de imprensa
  • Articulador Cultural

O Menino que cresceu ouvindo as músicas de seus pais

Nascido e criado na zona sul de São Paulo, filho de pais sergipanos. Cresceu ouvindo as músicas que seus pais curtiam como forró, música sertaneja, jovem guarda, MPB e outras vertentes populares que circulava o universo de sua família.

Recentemente, com meus pais acessando o Youtube, descobri músicas que eles ouviam lá em Sergipe, como o cantor José Augusto (sergipano)”

Nessa época não tinham acesso a toca-discos ou aparelhos que tocavam fitas cassetes, as condições eram bastante simples, na região da Vila Santa Catarina, zona sul de São Paulo, em meados das décadas de 1970 e 1980.

“Ruas de terras, terrenos transformados em campinho (de futebol), pequenas minas (de água) e muitas árvores”

Apesar da crescente urbanização esse era o cenário em que Jair, viveu durante sua infância.

O som que vinha da vizinhança na favela, era diferente do que aquele menino ouvia em casa.

Assim conheceu o funk, o soul, samba, samba-rock, o balanço e o rap que começava a ter destaque nas festas que os mais velhos frequentavam na vizinhança e nos bailes da cidade.

A descoberta de novas sonoridades

Foi nesse período que começou a observar as músicas ouvidas por vizinhos brancos. Eles tinham discos (de vinil) e fitas cassetes de artistas como Barry White, Marvin Gaye, Tim Maia, Cassiano, Hyldon, entre outros artistas expoentes da música negra.

Mas na segunda metade da década de 1980, quando entrou no mercado de trabalho que ele e seus amigos, começaram a ter acesso a essas mídias para poderem ouvir música.

“Eu sempre fui meio eclético”

Lembra que na casa de seus colegas de escola ouvia rock nacional e internacional, com os amigos do bairro ouvia “o som da função”, que era as músicas pretas que rolavam nas festas.

Também ouvia punk rock, música eletrônica e rap, parte da sua formação como ouvinte de música e por esse motivo era sempre convidado a tocar nas festas dos amigos.


FRASES DE CORTECERTU

  • “O rap me fez conhecer o Hip-Hop”
  • “O Hip-Hop me acolheu, mas parte de seus integrantes me excluíram também”
  • “Não descrevo essas paradas para indicar mocinhos e bandidos …”
  • “Tudo que eu aprendia na Folha, eu tentava replicar no Bocada Forte”
  • “Ser do Bocada me abriu portas”
  • “Eu sempre fui meio eclético”
  • “Romantizar a resistência não é comigo não”

A discotecagem, as influências e o amor pelo Hip-Hop

Entre 1988 e 1989, recorda que fez um curso de DJ na escola WTR, a segunda escola para DJs em São Paulo. Assim, passou a dominar algumas técnicas de discotecagem que apenas imaginava nos bailes Black e danceterias que frequentava.

Nessa fase que começou a se interessar pelo rap, ainda sem entender que o elemento fazia parte de uma cultura maior dentro do universo do hip-hop. Esse sentimento de pertencimento surgiu durante as discotecagens que realizava nas festas dos amigos.

Começou a frequentar vários shows de rap por São Paulo, indo a apresentações de artistas como Thaide e DJ Hum, Racionais MC’s, Duck Jam e Nação Hip-Hop, Comando DMC, DMN, Filosofia de Rua, Fatos Reais, Rap Sensation, RPW, entre outros.

“Foi um movimento que me acolheu”

Além de discotecar, percebeu também que tinha facilidade para escrever letras de rap e assim se aprofundando através do rap que conheceu a cultura hip-hop e a partir disso abriu os olhos para a dimensão que toda a cultura poderia proporcionar a sua arte.

“O Rap me fez conhecer o Hip-Hop e me mostrou que eu podia fazer parte daquilo tudo”

Como Jair dos Santos se tornou o Cortecertu

Quando iniciou sua trajetória no rap, Jair lembra que ele e seu primo eram fãs de MC Jack, rapper da primeira geração de cantores de rap de São Paulo, que tinha como um de seus maiores sucessos, a música “Centro da Cidade”.

Seu primo em tom de descontração batizou Jair de MC Jaca, pois dizia que ele era uma cópia mau feita do seu grande ídolo.

Depois disso adotou o nome Kamykazy Jay, quando fez parte do grupo Kamykazy Ataque e Resistência, no final dos anos de 1990.

O grupo lançou somente um álbum homônimo em 1999, produzido por Felipe Vassão e lançado pela gravadora Five Special, formado por Jay (Cortecertu), Jota e Turbo.

Influenciados pelo rap, punk e hardcore, inspirados por bandas como Rage Against the Machine e Body Count, o álbum fez muito barulho no underground, destacando músicas como “Olho Por Olho”, “Temporada de Caça”, “Poeta Marginal” e “Ataque e Resistência”.

Com o fim do grupo também vieram as “tretas”, que fez com que o artista se afastasse por um tempo para cuidar de sua saúde mental, que foi muito afetada neste período.

Depois desse hiato, voltou com um novo nome artístico “NoJay” (uma negação para o que tinha acontecido anteriormente), mas o tempo foi passando e ele pensou em se afirmar, pois sabia que tinha o Hip-Hop como condutor de seu propósito de vida.

Admite que sempre admirou os DJs Matt Black e Jonathan More, fundadores da gravadora Ninja Tune. Destacaram-se na cena com o grupo Coldcut.

“Em 1987, eles fizeram o remix pesado de ‘Paid in Full’, do Eric B & Rakim”

Algo que mudou sua visão sobre o DJing e a quebra de limites no uso de samples. Essa lembrança que tinha de como eles cortavam e editavam de maneira incrível as músicas, decidiu adotar o nome Cortecertu para assim prosseguir sua caminhada.


INFLUÊNCIAS DE CORTECERTU

  • MC Jack
  • Eric B & Rakim
  • Coldcut
  • Rage Against the Machine
  • Body Count
  • Richard Shusterman
  • Carolina de Jesus
  • Malcom X
  • Alex Haley

Música, jornalismo, cultura e arte

Ao ser perguntado sobre os caminhos que percorreu durante seu processo de formação musical e artística, Cortecertu foi direto e enfático.

“Creio que os caminhos também vieram das coisas negativas que existem na cena”

Depois de várias tentativas frustradas com grupos de rap, passou a se dedicar mais em trabalhos de bastidores dentro ou fora do Hip-Hop.

No início dos anos 2000, indicado por um amigo, baixista da banda Casa 5, Jair passou a trabalhar no setor de arquivos da Folha de S. Paulo. Tendo acesso a diferentes linhas editoriais, aos livros da biblioteca e vários conteúdos, começou a observar como os jornalistas preparavam suas reportagens e matérias.

“Foi um divisor de águas”

Em 2001 conheceu o site Bocada Forte, sendo convidado a fazer parte da equipe, trazendo aquilo que estava aprendendo na Folha, sua experiência no Hip-Hop e suas vivências para replicar no site.

O jornalista e pesquisador conta que trabalhou em diversos projetos na Folha até chegar à Coordenação de digitalização do acervo de fotos e da hemeroteca do jornal, essa bagagem também levou para aplicar no Hip-Hop.

“Ser do Bocada me abriu portas”

Foi por meio da leitura dos textos que produziu para o site Bocada Forte que surgiram oportunidades, dentre elas escrever para a Folha e o jornal Agora.


DICAS DE LIVROS INDICADOS POR CORTECERTU

  • Vivendo a Arte: O Pensamento Pragmatista e a Estética Popular” – Richard Shusterman
  • Quarto de Despejo – Carolina de Jesus
  • Autobiografia de Malcom X – Alex Haley

Sobre a Evolução do Hip-Hop através dos anos

Cortecertu faz um balanço sobre todos os caminhos que o Hip-Hop conquistou durante as décadas que surgiu até os dias de hoje. Lembra que no início poucos respeitavam e que hoje é reconhecido como manifestação cultural.

  “Como toda manifestação que é fruto do fazer humano, temos tensões, narrativas e disputas”

O pesquisador traça um diagnóstico de todos os processos que o Hip-Hop está inserido, desde o Hip-Hop de base até a indústria que movimenta grandes cifras no mercado da música e da cultura.

“O rap conquistou um novo status”

Explica que existem pessoas envolvidas na cultura que detém conhecimentos e outras não, pessoas que são remuneradas trabalhando com o Hip-Hop e outras que não conseguem acessar por falta de conhecimento, por desconfiança ou por comodismo.

“Dos mais velhos aos mais novos, todos querem garantir permanência, reconhecimento, renda e espaço”

Hoje o Hip-Hop atua tanto na inciativa privada, quanto no poder público, e ambos setores são beneficiados pela geração de valor que nossa arte proporciona, mas que há diversos caminhos que podem ser explorados seja profissionalmente ou artisticamente, observa.

“Não descrevo essas paradas para indicar mocinhos e bandidos, culpados ou inocentes”

Diz que atualmente existem caminhos que podem ser conquistados por quem trabalha na cultura, mas sabe que não há espaço suficiente para todos, devido a burocracias, circunstâncias ou até mesmo aptidão de encarar desafios e aprendizados.

“Conquistamos muitas coisas, mas não podemos ignorar essas tensões que também moldam a Cultura Hip-Hop”

Destaca que existem tensões na cultura que precisam ser tratadas e que não podemos ignorá-las, mas salienta que é necessário reforçar a importância de quem luta pelo espirito coletivo e que é fundamental colocar na cabeça dos mais jovens que existe algo maior do que a busca por reconhecimento nas redes sociais e lucro.

Sobre o EP “Encantamento” em parceria com FLVXL

Capa do EP Encantamento – Cortecertu e Flavio XL

Após a pandemia Cortecertu intensificou seu trabalho como beatmaker, lançando um material valioso em suas plataformas de música. Entre singles, álbuns e EPs, o beatmaker vem construindo sua discografia colocando em prática todas as suas influências em seus repertórios de produções e beats.

O rapper Flavio XL veio com a proposta de parceria em um EP há alguns anos e aos poucos foram trocando ideias e informações para que surgisse um trabalho musical da dupla.

Combinaram suas agendas e esse ano saiu o EP Encantamento, com seis faixas e quase vinte minutos de duração total. Lembra que mandou para o Flavio alguns beats para o projeto e o rapper voltou com algumas guias gravadas.

Algo curioso aconteceu durante esse processo, XL enviou uma guia em cima de um beat de Cortecertu que não estava na listagem que ele havia enviado para o rapper, mas o resultado ficou tão incrível que resolveram incluir essa faixa no projeto.

“O Bagulho ficou foda e virou “Novo jazz caótico remix”

O legado do Bocada Forte para o Hip-Hop

Ao ser questionado sobre o papel do Bocada Forte em meio a uma época de circulação de notícias rápidas e uma linha editorial que destaca acontecimentos midiáticos, Cortecertu diz que o objetivo do Bocada Forte é pensar o Hip-Hop afim de proporcionar debates sobre a cultura, falar sobre políticas e lutas contra racismo e desigualdade, justiça, sempre tendo o Hip-Hop como fio condutor.

“Não tem como a gente competir com páginas de rap que trabalham com divulgação e conteúdo com … digamos … menos profundidade”

Desabafa.

Mas observa que estão caminhando e acompanhando as mudanças no cenário afim de preservar o acervo editorial do site pois esse é o maior legado do time do Bocada.

DVD “1000 Trutas, 1000 Tretas” – Racionais MC’s

Em um domingo de plantão, em 2004, o fotógrafo e jornalista João Wainer, foi até o arquivo da Folha de S. Paulo para saber como encontrar fotos antigas dos anos 1980, retratando a chamada “época dos função”. Ele queria ver como as pessoas que curtiam aquele movimento se vestiam, como eram os tênis, seus cabelos e seus adereços.

Então, como conhecia bem os arquivos e pastas da Folha, separou as pastas que continham as fotos da juventude da época para João. Durante a pesquisa a troca de ideias entre os dois foi intensa, conversaram sobre rap, violência policial, periferias e a visão preconceituosa de muitos jornalistas e fotógrafos que registravam esses acontecimentos nas “quebradas”.

O tempo passou e num dia João entrou em contato com ele por telefone e disse que os Racionais estavam produzindo um DVD e que gostariam de incluir cenas extras contando sobre a história negra do pós-abolição até os bailes. Wainer indicou Cortecertu para os integrantes dos Racionais pois além de DJ, conhecedor da trajetória do grupo, tinha conhecimento absoluto sobre pesquisa em acervo.

Após uma reunião três dias depois dessa conversa, iniciou a pesquisa que durou meses percorrendo arquivos como da TV Cultura e do MIS (Museu da Imagem e do Som).

“Aprendi muito”

Acrescenta que a experiência agregou muito para sua vida profissional e levou toda essa experiência para outro projeto que trabalhou em 2017, o Especial de 100 anos do Clássico Corinthians e Palmeiras.

Clique e assista:

https://arte.folha.uol.com.br/esporte/2017/100-anos-do-classico/rivalidade-centenaria

Como conhecia parte das bases de dados da TV Cultura, colheu muitos depoimentos e imagens de jogadores, algo que teve um enorme peso no projeto.

Motivações para seguir e mensagens para novas gerações

Ao fim da entrevista Cortecertu fala que sua motivação ainda está na base de tudo, os princípios do Hip-Hop desenvolvidos numa época e ambiente de pobreza e exclusão social.

Contar nossa história sob a perspectiva de um povo que é excluído, mas resiste e sempre cria estratégias para lutar contra os inimigos racistas, capitalistas, neoliberais, fascistas.

Crava que exercer isso é estar sempre atento para não se perder.

“Já me perdi várias vezes”

Conclui que é preciso ter dedicação, leitura, consciência de classe, apoiadores, amor e ódio também.

E finaliza.

“Romantizar a resistência não é comigo não”

Aquele menino que cresceu ouvindo rádio na Vila Santa Catarina talvez não imaginasse que um dia ajudaria a preservar parte da memória do Hip-Hop brasileiro.

Entre discos, arquivos, reportagens, beats e pesquisas, Jair dos Santos construiu uma trajetória que vai além da música.

Mais do que acompanhar a história da cultura Hip-Hop, Cortecertu ajudou a registrá-la. E, ao preservar essa memória, garantiu que as próximas gerações também possam compreender de onde vieram e para onde podem seguir.


Linha do tempo de Cortecertu


Acompanhe Cortecertu


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