
Cantor, rapper, produtor musical, técnico de áudio, multi-instrumentista e um dos nomes mais respeitados dos bastidores do rap brasileiro, Marrom SNT revisita mais de três décadas de trajetória em entrevista exclusiva ao Sala Secreta News. Da infância na igreja à profissionalização ao lado do RZO, ele fala sobre Erick 12, Sabotage, os bastidores da cena e os projetos que marcam sua atual fase artística.
Perfis | Sala Secreta News
Histórias que preservam a memória do Hip-Hop brasileiro.
Mais do que uma voz, uma construção de legado
Se você viveu a chamada era de ouro do rap nacional ou é apaixonado pela cultura Hip-Hop, provavelmente já ouviu a voz marcante de Marrom SNT em algum clássico do gênero.
Seja nos refrões inesquecíveis, nas produções musicais ou nos bastidores que ajudaram a moldar o rap brasileiro, sua trajetória se confunde com parte da história do movimento.
Em entrevista exclusiva ao Sala Secreta News, Marrom revisita mais de três décadas de carreira, compartilha lembranças, revela bastidores inéditos e faz uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da cultura Hip-Hop.
Raio-X | Marrom SNT
- Cantor
- MC (Mestre de Cerimônia)
- Produtor Musical
- Beatmaker
- Técnico de áudio
- Multi-instrumentista
- Designer Gráfico
- Empreendedor Cultural
- Compositor
- Arranjador
- Educador / Oficineiro
Antes de Marrom SNT, Eduardo dava seus primeiros passos na música
Seu primeiro contato com a música aconteceu aos nove anos de idade, na igreja que frequentava em sua comunidade.
Foi ali que aprendeu a cantar, tocar instrumentos musicais e participar de peças de teatro de rua, experiências que formariam a base de sua trajetória artística.
Imerso no ambiente musical cristão, além das músicas sacras e congregacionais, também passou a consumir black music gospel, como a Banda Rara, Banda Kadoshi, Pr. Adhemar de Campos, entre outros.
Com influências de melodias ritmadas conheceu também o hip-hop e percebeu que alguns artistas como Braiam (Filosofia de Rua) e Lino Krizz e DJ Dri (Os Metralhas), também tinham características parecidas com a sonoridade que buscava.
“O canto melódico foi o que me deu um pouco de habilidade para chegar ao rap”
A Origem do nome artístico
Muito antes de subir aos palcos do RZO, Eduardo ganhou o apelido de “Marrom” durante o curso técnico no Senai.
O motivo era simples: ele costumava frequentar as aulas usando praticamente sempre roupas em tons marrons — camisa xadrez, calça larga e botas no estilo Timberland.
Uma professora passou a chamá-lo de “marronzinho” durante uma aula e o apelido rapidamente foi adotado pelos colegas.
Mais tarde, quando ingressou no RZO, abandonou o antigo nome artístico “Ed Brown” para evitar comparações com Edi Rock e Mano Brown.
Ao ser perguntado por Helião qual seria seu nome artístico, respondeu apenas:
“Meu apelido é Marrom.”
Após algum tempo, incorporou a sigla S.N.T. que significa “Sempre No Tom” para evitar comparações.
O encontro com o produtor musical Erick 12
Foi ao conhecer o produtor musical Erick 12, ainda na década de 1990, que Marrom deu um salto profissional e pessoal em sua carreira.
“Não sei te dizer quantos porcento ele foi influente na minha vida como pessoa, não só como profissional”
Afirma que Erick o convidou para participar da produção de um álbum que estava produzindo juntamente com o renomado e também produtor Fábio Macari (em memória), foi surpreendido ao saber de quem era o trabalho.
“Cheguei no estúdio e o artista entrou pela porta, era simplesmente Ndee Naldinho”
Sua participação na produção do álbum “Preto do Gueto” de Ndee Naldinho no antigo estúdio Placa 2000, situado no centro de São Paulo, foi o ponto de virada para que pudesse colaborar com diversos outros artistas.
Participou em arranjos das músicas “Quinto Vigia” e “Aquela Mina é Firmeza”, apesar de ainda não possuir autonomia musical de criação, na ocasião foi direcionado pelo próprio artista, que deu as diretrizes a ele.
“Naldinho praticamente cantarolou tudo que ele queria, ou em cima de algum sampler”
A importância do RZO em sua trajetória
Após o lançamento do álbum “Todos São Manos”, o grupo RZO (Rapaziada da Zona Oeste), liderado por Helião, convidou Marrom a fazer parte do time que os acompanharia na turnê do álbum.
Dos ensaios realizados embaixo da escada da casa de Helião até a mudança para a laje, onde espelhos passaram a ser utilizados para aperfeiçoar as performances, Marrom acompanhou de perto o processo de profissionalização do grupo.
“Então, a gente entrou numa época em que a gente potencializou e profissionalizou isso”
Os ensaios eram semanais, independente se teria shows ou não, viu de perto como era uma preparação para uma apresentação com performance de palco a até mesmo estudo de quem ia falar o quê durante os shows, tudo era milimetricamente ensaiado.
E essa bagagem trazida desde sua infância contribuiu também nos ensaios e apresentações do grupo nos shows.
“O RZO me ensinou a profissionalizar a arte.”
Frases de Marrom SNT
- “No estúdio você está eternizando uma ideia.”
- “O RZO me ensinou a profissionalizar a arte.”
- “A gente não fazia clássicos. A gente só estava vivendo.”
- “O Hip-Hop perdeu a função que tinha antes da globalização.”
- “O que me mantém vivo é acreditar que ainda tenho algo relevante para dizer.”
Experiências e momentos marcantes
Durante o tempo em que permaneceu no RZO, compartilhou momentos inesquecíveis ao lado de Helião, Sandrão, Negra Li, Sabotage (em memória), DBS, Negro Útil (em memória) e DJ Cia.
Lembra de encontrar Sabotage na estação de metrô Barra Funda, para irem juntos aos ensaios do grupo, dos rolês que o amigo fazia com sua irmã nos bailes, os enquadros policiais e tiros nos eventos de rap. Essas são algumas das lembranças que guarda daquele período.
Em 2003 durante a extinta premiação de hip-hop Hutuz, estava com o RZO no palco recebendo prêmio das mãos de Chuck D e Flavor Flav (Public Enemy).
Assista a entrega do prêmio Hutúz ao grupo RZO por Chuck D e Flavor Flav (Public Enemy)
“Caramba, agora eu faço parte realmente desse rap mundial”
Hoje, olhando para trás, Marrom reconhece que ele e seus companheiros estavam escrevendo um dos capítulos mais importantes da história do rap brasileiro sem sequer perceberem a dimensão daquele momento.
A voz por trás dos clássicos do rap nacional
Nesse ambiente de relação com produtores e artistas, participou de algumas canções mais marcantes da história do rap nacional.
Conhecido pelos refrões de músicas como “Aquela Mina é Firmeza” de Ndee Naldinho, “Desculpa Mãe” do grupo Facção Central e “Super Billy” do Conexão do Morro, sua voz tornou-se uma das mais reconhecíveis do rap nacional.
“A gente não fazia clássicos. A gente só estava vivendo.”
O cantor relembra que essa época estava somente vivendo e desfrutando de cada momento, não imaginava que as músicas que estavam sendo gravadas seriam consideradas clássicos no futuro, mas que tinha certeza que havia algo genuíno sendo feito.
E somente percebeu isso, quando voltou a morar em São Paulo em 2019, após um hiato de quinze anos morando em Santa Catarina, vivendo outro momento.
Participações Marcantes
- Aquela Mina é Firmeza (Ndee Naldinho)
- Desculpa Mãe (Facção Central)
- Super Billy (Conexão do Morro)
- Mundo do mal, O Mal do Mundo (Oest Rap)
- Faculdade de Mil Grau (Tribunal MC’S)
- No Brooklyn (Sabotage)
- Rolê na vila (RZO)
Quando o rap era o jornal da periferia
Durante os anos 1990, o rap assumiu um papel que ia muito além da música. Tornou-se um interlocutor entre periferias, um espaço de denúncia, identificação e formação de consciência coletiva.
Talvez essa autenticidade seja a causa de músicas feitas neste período terem se tornado tão importantes para o gênero.
Reflete.
“O Hip-Hop perdeu a função que tinha antes da globalização.”
Quando a informação não chegava ou demorava um pouco, era através da música que essa conexão era feita.
Era assim que entendeu que alguém na zona sul de São Paulo passava pelos mesmos problemas que ele, o rap proporcionou essa interação.
Contudo, ressalta os pontos positivos com o crescimento da tecnologia, da Internet e redes sociais, que possibilitaram novos espaços e caminhos para o desenvolvimento artístico.
O artista que aprendeu a fazer de tudo

Sua trajetória foi construída em um processo que era desafiador, conseguir realizar arte sem investimento ou uma gravadora por trás era muito difícil.
Por esse motivo, teve que aprender caminhos para viabilizar seu trabalho, acumulando aprendizados e conhecimentos durante sua história.
Além de aprender a cantar e tocar instrumentos, também precisou conhecer outras áreas para viabilizar sua arte, tornando-se designer gráfico, técnico de áudio, produtor musical, beatmaker, gestor de carreira e empreendedor cultural.
Perguntado qual das áreas acha mais importante em sua formação, o artista responde:
“Eu acho que é justamente a soma de todas elas”
Hoje, essa multiplicidade de funções permite que Marrom atue em praticamente todas as etapas da produção musical, da criação dos beats à gravação, passando pelos arranjos e direção artística.
Discografia Essencial
25 anos depois de “O Gueto é assim”
Em comemoração aos 25 anos de “O Gueto É Assim”, prepara o EP “Ainda É Assim – 25 anos depois”. O projeto traz releituras acústicas de faixas emblemáticas do álbum, preservando as letras originais. Para Marrom, os temas continuam atuais porque as questões sociais que inspiraram aquelas composições ainda fazem parte da realidade brasileira.
Ouça o álbum o “Gueto é Assim”
Projetos Atuais Em Andamento
- Marrom SNT – EP Ainda é Assim… 25 anos depois
- Marrom SNT & Mano F (O Revide) Álbum Além das vaidades
- Marrom SNT – Álbum Legado
- Marrom SNT – Álbum Paixão de Quebrada (RnB & Neo Soul)
- Marrom SNT – Retomar o lançamento de singles as sextas (Rap Di Sexta)
- Ministério Unsom – Álbum Mesmo Cacos Refletem Luz
- Ministério Unsom – Rima Viva (releituras acústicas de clássicos do ministério)
Propósito em permanecer e construir
Mesmo não possuindo uma fórmula exata para permanecer ativo, entende que seu maior desafio foi separar a vida pessoal do profissional.
Durante anos tentou conciliar as duas coisas, mas confessa que patinou muito até entender os processos de como conduzir os dois caminhos de uma forma saudável.
“Elas sempre duelaram muito”
Com essa reflexão entende que poderia otimizar seu tempo e colocar a energia necessária para aquilo que poderia ser importante em cada momento.
Ressalta que para se manter ativo e relevante, é necessário acreditar em um propósito, que você não está simplesmente caminhando sem rumo.
Por isso como produtor hoje em dia carrega a responsabilidade de extrair o máximo dos artistas que trabalha.
“Quando você entra no meu estúdio, para mim está eternizando uma ideia, um pensamento”
Assista o Visualizer / Lyric Video “Que Fim Que Cê Quer?” de Marrom SNT
Marrom SNT em números
- Mais de 30 anos de carreira
- Integrante do RZO a partir de 1999
- Produtor musical desde o fim dos anos 1990
- Mais de 30 discos produzidos no Sul do Brasil
- Participações em clássicos do rap nacional
- EP Ainda É Assim celebra os 25 anos de O Gueto É Assim
Ao revisitar sua própria trajetória, Marrom SNT mostra que sua contribuição para o rap brasileiro vai muito além das participações em clássicos ou da produção musical.
Sua história passa pela formação de artistas, pela profissionalização dos bastidores, pela preservação da memória do Hip-Hop e pela busca constante de transformar experiências em conhecimento.
Em um momento em que a velocidade das redes sociais muitas vezes supera a profundidade das mensagens, sua obra permanece como um convite para ouvir com atenção, refletir e compreender o rap como ferramenta de transformação.
Se, no estúdio, cada gravação representa a oportunidade de “eternizar uma ideia”, como ele próprio define, sua trajetória mostra que algumas dessas ideias já atravessaram gerações — e continuam encontrando novos ouvintes, vinte e cinco anos depois.
Momentos que marcaram a trajetória de Marrom SNT
- Formação artística e musical na infância
- Importância de Erick 12 em sua carreira
- Entrada no RZO e profissionalização
- Convivência com Sabotage
- Prêmio Hutúz com RZO e Public Enemy
- Participações em clássicos eternos
- Álbum O Gueto É Assim
- Ministério UnSom
- Produção Musical em São Paulo e Santa Catarina
Redes Sociais de Marrom SNT
- Instagram: https://www.instagram.com/marromsnt/
- Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/44yG3iHce7qtXfuuzuDlta
- Facebook: https://www.facebook.com/rappermarromsnt
- Youtube: https://www.youtube.com/@marrom_snt





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