TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE: A PATOLOGIA EXPOSTA EM UM REALITY SHOW



Distúrbio que se manifesta, especialmente, através de demonstrações reais de instabilidade emocional acentuada ganhou evidência depois que uma participante de reality foi diagnosticada com a doença

Por Andréa Ladislau*

Nos últimos dias muito tem se falado sobre o Transtorno de personalidade Borderline. O distúrbio ganhou os noticiários depois que uma participante de reality foi diagnosticada com a doença. A exposição, marcada pelo sofrimento evidente, passou a ser questionada por quem acompanha a atração.

Mas você já sabe o que é esse transtorno e quais as suas implicações? 

A personalidade Borderline corresponde a um transtorno mental que se manifesta, especialmente, através de demonstrações reais de instabilidade emocional muito acentuada. Muitos ainda confundem essas manifestações com o Transtorno bipolar, mas sãos distúrbios com características distintas. Para evitar confundir, se faz necessário a análise de suas diferenças.  

Também chamada de transtorno de personalidade limítrofe, o transtorno de Borderline não tem cura, mas pode ser controlada com um tratamento que associa psicoterapia, medicamentos e, raramente, internação em clínica psiquiátrica – salvo em casos mais severos. Os primeiros sintomas costumam aparecer durante a adolescência, afetando principalmente mulheres jovens, embora os homens também possam desenvolvê-la. Adultos, a partir dos 40 anos, também possuem tendência a desenvolver o transtorno associado a outras neuroses. 

Raissa Barbosa
Diagnosticada com o transtorno de personalidade borderline, Raissa Barbosa teve diversas crise durante sua participação na 12ª edição de ‘A Fazenda’, da Record | Imagem: Reprodução/Record


O comportamento Borderline é um transtorno mental em que a pessoa apresenta mudanças repentinas – e frequentes – de humor e comportamento, alternando entre momentos de estabilidade e de descontrole. Dentro do comportamento Borderline podemos evidenciar: agressão, automutilação, comportamentos compulsivos, hostilidades, falta de moderação, comportamentos autodestrutivos e fobias severas. Um misto de sentimentos pode motivar os comportamentos, como por exemplo: culpa, ansiedade, perda de interesse, falta de prazer pelas atividades que desenvolve, solidão e tristeza. O paciente vê sua imagem distorcida e se alimenta de uma paranoia, associada ao narcisismo e a depressão. Neste sentido, como a instabilidade emocional é muito intensa, os Bordeline´s costumam ter problemas em seus relacionamentos pessoais, perdendo laços afetivos, familiares e de amizade.  

Por não serem bem compreendidas, e pelo fato do transtorno provocar mudanças bruscas no comportamento – em muitos casos, provocando a agressividade e o desequilíbrio emocional -, essas pessoas costumam enfrentar períodos de solidão intensos. Se isolam socialmente, o que pode acabar prejudicando até a vida profissional. Muitos, por se sentirem incompreendidos e julgados, adotam comportamentos de risco que podem levar até ao suicídio. 

A instabilidade emocional, no caso dos pacientes que apresentam esse transtorno, pode gerar alterações de humor em questão de minutos ou segundos. Diferente do paciente bipolar que alterna estados de euforia com duração de até uma semana e depressão que pode durar dois a três meses. Fatores internos, como desequilíbrio dos neurotransmissores, são os responsáveis por essas alterações de uma pessoa portadora do Transtorno bipolar. Já no caso do Bordeline, o que alimenta essas alterações são os fatores externos, como uma possível ideia de rejeição. Ou seja, ao se sentir rejeitado e abandonado, a agressividade e o desequilíbrio tomam conta da mente do paciente – e, assim, como ele não consegue ter o controle de suas reações, acaba por potencializar seu desconforto e generalizar atitudes extremistas. 

Estudos e pesquisas apontam que é possível que a mesma pessoa possa apresentar os dois transtornos simultaneamente, o que torna o diagnóstico ainda mais difícil –  podendo aumentar as chances de complicações, como as tentativas de suicídio. Além disso, pode apresentar outros transtornos associados, como por exemplo: ansiedade, depressão, dependência de substâncias químicas e distúrbios alimentares.  

Esses pacientes sofrem muito, pois estão no limiar entre a euforia e a depressão. A sensação interna é de que estão vivendo sempre na corda bamba das emoções e que, a qualquer momento, podem sair da linha. São acometidas por flutuações de humor intenso. Além disso, o estresse pode desencadear pensamentos paranoicos temporários ou sintomas dissociativos graves. 

E quais seriam as causas para este transtorno? Na realidade, não existe uma causa específica para quem desenvolve o Transtorno Borderline, sendo as crises geralmente manifestadas após conflitos emocionais difíceis ao longo da vida, que podem ser experiências como de morte, separação, ou até mesmo abuso sexual – principalmente na infância e/ou na adolescência. É muito importante que o diagnóstico do distúrbio seja fechado o quanto antes para que a condução do tratamento culmine em um resultado satisfatório e não permita a associação de outros transtornos ou queixas maiores. Visto que o Borderline não pretende causar mal a ninguém e nem a si mesmo, no entanto, o seu desequilíbrio emocional abrupto cega suas ações e, inconscientemente, criam uma espécie de insanidade temporária. 

Portanto, em situações normais, com acompanhamento psicoterápico com psicanalista ou psicólogo, bem como com  orientação médica aliada a medicações específicas, consegue-se tratar o Borderline e fazer com que esse indivíduo tenha um maior suporte terapêutico no controle de seu transtorno. Enquanto que não podemos dizer o mesmo quando este indivíduo está dentro de um reality, onde as emoções ficam afloradas e o psicológico é colocado em teste a cada segundo. Além disso, a intensidade dos sentimentos e o nível dos desafios pessoais dentro de um confinamento exigem das pessoas um controle emocional muito maior. Que fique claro, enfim, que a pessoa diagnosticada com o Transtorno de Borderline precisa estar em constante vigilância de um profissional de saúde mental, fazendo a administração correta da medicação proposta para que as crises sejam menos intensas e que ocorram em espaço maior de tempo, possibilitando qualidade de vida e equilíbrio psíquico.

*Dra. Andréa Ladislau, Psicanalista  Membro da Academia Fluminense de Letras é Pós Graduada em Psicopedagogia e Inclusão Social e Embaixadora e Diplomata In The World Academy of Human Sciences USAmbassador In Niterói, Rio de Janeiro.

Imagem: Maisa Borges no Pexels

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