PSICOLOGIA HUMANA E SAÚDE MENTAL, EM MEIO A PANDEMIA

A pandemia do coronavírus mudou a rota da rotina da população em todo o mundo que, em grande maioria, segue em quarentena. E para falar sobre os impactos na saúde mental das pessoas, neste momento tão delicado, conversamos com as especialistas em psicologia humana Anna Silvia e Francinéia Fabrizzio

Sidnei Rodrigues de Andrade*

Adotada por líderes de diversos países, a quarentena compõe algumas das medidas restritivas recomendadas pela OMS, profissionais de saúde e de diversas áreas do conhecimento humano e científico para prevenir, tratar e conter a proliferação do Covid-19.

A pandemia do #coronavírus não só mudou a rota da rotina de toda a população do planeta que, em grande maioria segue em quarentena, como, também, nos impõem novas formas de viver e nos relacionar.

E para falar sobre alguns destes impactos na saúde mental da população, conversamos com as especialistas em psicologia humana:

Anna Silvia

Anna Silvia Rosal de Rosal, doutoranda em psicologia, psicanalista e autora do livro Vida de expatriado: carreira e subjetividade do executivo solteiro pelo olhar da Psicologia, editora Zagodoni- 2016.

Francinéia Fabrizzio

Francinéia Fabrizzio Aparecido, psicóloga e psicopedagogia clínica institucional, idealizadora do espaço @atelie_do_inconsciente e coautora do livro: Mulheres Invisíveis da Editora Conquista, com lançamento previsto para maio deste ano.


Confira, a seguir a íntegra da entrevista:

Sala Secreta – O sociólogo polonês Zygmunt Bauman criador do conceito: modernidade liquida diz que as relações humanas e sociais, derretem facilmente como se fosse uma pedra de gelo. Por meio da quarentena vamos fortalecer os laços afetivos e sociais?

Anna Silvia: O coronavírus, a quarentena e tudo mais que se instalou a partir desses eventos oferecem uma excelente oportunidade de crescimento, autoconhecimento e socialização (à distância), mas não é uma garantia de crescimento. Cada um irá experimentar isso de um modo muito particular. Alguns sairão fortalecidos e isso está relacionado à capacidade para pensar, sentir, refletir sobre essa experiência. Outros, no entanto, terão dificuldade para atravessar esse momento porque se empenharão na tentativa de deixar essa experiência distante de si. Então, vai olhar para o externo, uma espécie de negação do que ocorre em seu mundo interno.

Francinéia Fabrizzio: Bauman foi assertivo em sua obra quando fala sobre a fragilização dos vínculos. Vivemos em uma era moderna onde a meta é a felicidade. Nunca temos tempo para nada, estamos sempre em busca de algo. Algo a mais que nunca chega definitivamente, e buscamos mais e mais. Vamos aos shoppings, ao cinema, aos barzinhos, as viagens, quando não, temos que dobrar nossa jornada de trabalho, afinal preciso produzir, trocar meu carro, fazer aquela viagem de férias, me inscrever naquela outra pós graduação. Aos finais de semana, preciso almoçar fora, se tenho família, tem as escolas dos filhos com sua grande grade curricular preparando mais um para a grande massa produtiva capitalista. Pois, aos 10 anos nossos filhos precisam ser no mínimo bilingue. Quando estamos todos juntos, temos que responder aquele e-mail muito importante ou WhatsApp, com aquele amigo que não vejo faz tempo, e que continuarei não vendo, pois cadê o tempo ?

Entendo que esse grande fenômeno pandêmico, nos colocou frente a frente uns com os outros. Nos colocou diante de nossa humanidade, como espelhos, e surgiu o questionamento: Quando desaprendi a me relacionar com o outro?

A pandemia, assim como grandes catástrofes coloca o sujeito diante de sua finitude, fazendo ressurgir sentimentos humanos diante do medo, tais como fraternidade, solidariedade, esperança e fé. Uma forma de preservação, para assim distanciar o aniquilamento. Estamos diante da possibilidade de refletir, os vínculos, o afeto, porém não podemos esquecer que toda relação é construída. Portanto, só resgatamos o que um dia já existiu, ainda que seja frágil.

“Seguir à risca as orientações das autoridades da área da saúde é muito importante! Assim, eliminamos a ideia de que, em algum lugar, há uma receita infalível”. Anna Silvia

SS – O atual cenário político brasileiro favorece ou atrapalha na contenção da pandemia?

AS: Está muito claro que há um desencontro na gestão da crise do coronavírus. Quando os interesses pessoais (dos políticos), se sobrepõem aos coletivos atrapalha o combate da pandemia como, também, retarda a implementação de uma política econômica que minimize efetivamente os efeitos dessa crise na vida das famílias diretamente afetadas, em especial, dos trabalhadores autônomos, dentre eles ambulantes, pequenos e micro empresários.

FF: Dentro de uma avaliação psicológica clinica, não pautaria apenas pelo cenário político como única forma caótica que possa vir atrapalhar ou auxiliar diante da pandemia. De forma clara, todo sofrimento é intrapsíquico. Temos uma conjuntura situacional real nesse momento atípico do país. O estado de isolamento, tendo como uma das fontes de entretenimento o mundo tecnológico deixa o sujeito a mercê de excessos de informações desencontrada, fica difícil um prognóstico, aumenta-se a persecutoriedade ( doença psicológica que traz a sensação de perseguição) diante do que não se há um precedente. As orientações veiculadas em massa e as tomadas de decisões emergenciais, colocam todos em xeque diante do novo. Estamos comprimidos, e aguardamos decisões importantes de nossos governantes, o cenário é confuso e a prevenção está para além de isolamento, pois precisamos de recursos de educação, conhecimento, orientação, e preservação da saúde psíquica. Estamos todos esperando por medidas governamentais rápida e objetivas para sobrevivência de forma substancial em tempos de reclusão.

SS – Os primeiros decênios de século XXI provou que o modo de produção industrial em todos continentes do mundo triplicou, contribuindo para o aumento dos problemas psicológico de toda população. Isso é verdade?

AS: O sofrimento psíquico é inerente ao homem. Não existe vida sem algum grau de sofrimento. Em qualquer tempo da história da humanidade o sofrimento se fez presente. A questão é quando o sofrimento transborda e fica maior do que o prazer e o bem-estar. É certo, também, que a carga de cobrança e pressão que passou a fazer parte da vida na contemporaneidade contribui para uma série de quadros psicopatológicos.

FF: Podemos dizer que de certa forma, sim. As mudanças na área de produção, a inserção ao mundo industrial trouxe ao homem, antes limitado em sua produção manual, o desafio de lidar com máquinas e grande disputa do mercado, tem trazido estafa a um número esmagador de trabalhadores. Problemas como ansiedade, crises de pânico, depressão e, até mesmo, suicídio tem se alastrado como sintoma de improdutividade e a sensação de vazio que acompanha, o que se torna inatingível a nível de expectativas. Não há mais tempo para viver a conquista alcançada, pois sobre a era de inovações tecnológicas os desafios se tornam globalizados e utópicos diante da exigência do mercado acirrado e competitivo.

“A pandemia do coronavírus, como um espelho, nos colocou diante da nossa humanidade, fazendo surgir o questionamento: Quando desaprendi a me relacionar com o outro”? Francinéia Fabrizzio

SS – Toda a sociedade tem a oportunidade de rever seus conceitos pessoais e profissionais, por meio da quarentena. Como você observa a saúde mental da população contemporânea?

AS: Nas últimas décadas, a depressão e mais recentemente o suicídio cresceram acentuadamente. São os efeitos da maneira como o homem lida com seu sofrimento. Desse modo, esses “males” são o mal-estar de nossa época. A ideia de não aprofundar as relações – aliás como denunciou Bauman – a dificuldade para pensar e falar sobre o próprio sofrimento explicam esses quadros. É impossível resolver no mundo externo aquilo que está dentro de nós, isso aumenta o sofrimento. Por outro lado, hoje temos meios para cuidar dessas questões. A psicanálise e a psicologia oferecem recursos para o homem se encontrar, pois fugir de si mesmo é um engodo, uma armadilha.

FF: A saúde mental sempre foi um desafio em qualquer tempo, visto que somos seres de subjetividade e adaptáveis. A tecnologia com seu sistema de inovação continua ao profissional do século XXI. Diante desse quadro atípico de confinamento que estamos vivendo (a quarentena), observo dentro os relatos que me chegam, seja por meio de amigos, conhecidos ou pacientes, que o maior embate diante da imposição é o sentimento de coação, frustração, aumento da ansiedade, a sensação de impotência. O grande desafio diário em sentir que não se tem nada para fazer. Em se tratando de saúde mental, fica sempre a sensação que quando se tem muito a fazer com horários acirrados e preenchidos em sua totalidade está se produzindo, e diante de um tempo de reclusão e reinvenção de tarefas, surge então o tédio, deixando margem a um pensamento: “O indivíduo diante da modernidade, desaprendeu a estar consigo, a ponto de que estar com outros, também, tem se tornado impossível. Visto que, não pertence mais a si nem ao mundo que não seja para ele seu próprio estado caótico”. A saúde mental estará sempre colocando o homem em desafio com ele mesmo.

“Há um desencontro na gestão da crise do coronavírus pelos governantes. Quando os interesses pessoais (dos políticos), se sobrepõem aos coletivos atrapalham o combate da pandemia e retarda a implementação de uma política econômica para a população mais vulnerável”. Anna Silvia

SS – Quais dicas gostaria de compartilhar com a população, neste momento?

AS: O lado objetivo já está posto: seguir à risca as orientações das autoridades da área da saúde. Isso é muito importante! No mais, falar sobre dicas mesmo que sob os aspectos psíquicos dessa questão, pode ser perigoso. É mais interessante discutirmos meios possíveis de enfrentamento. Assim, eliminamos a ideia de que em algum lugar há uma receita infalível quando na verdade o melhor caminho para viver a quarentena passa pelo conhecimento de si. É importante entender o que está provocando angústia para então entender como este sentimento pode ser significado. Ou ainda fazer o bom uso da disposição ou energia psíquica tanto em prol de si mesmo quanto do coletivo. É importante que cada um identifique o que faz sentido em sua história. Alguns podem aproveitar para botar a leitura em dia, se exercitar, arrumar armários e se comunicar com amigos, por exemplo. De modo geral, aprofundar ou melhorar as relações parece bem interessante, principalmente com quem está perto fisicamente.

FF: : Reinventar, essa seria a mais apropriada palavra de comando pra esse novo momento. Adaptar-se ao momento transicional, criando rotinas de informação, tomando cuidado com os excessos, organização que vão desde a prevenção e cuidados físicos, criar estratégias de trabalho home office, não postergar os estudos, utilizar os veículos virtuais com prazos e tempos determinados, lançar mão de leituras para complementar a rotina e claro, momentos de reflexão e meditação para cuidar da saúde psíquica e emocional, visto também que temos várias campanhas gratuitas, inclusive no @atelie_do_inconsciente, de apoio neste período delicado que estamos transitando.

“Não há momento mais propicio para reavaliar a vida, a si e o outro. E dentro do silêncio lutar, não somente para sobreviver, mas, talvez para viver pela primeira vez outra vez”. Francinéia Fabrizzio

SS – Educação e psicologia são aliadas necessárias neste momento de pandemia global?

AS: São complementares. Há muito para aprender tanto do ponto de vista cognitivo, ampliar o conhecimento sobre uma série de temas que essa situação nos apresenta, quanto do ponto de vista psíquico e emocional quando a psicologia/psicanálise pode ajuda a significar essa experiência e a nos conhecermos mais.

FF: A educação sempre será uma aliada ao conhecimento necessário de um povo, pois ela tem a função de levar a cultural, a ética e a moral aos seus. Dentro do cenário atual a nível mundial, a cultura educacional influência de forma espetacular aos ajustes necessários para o enfrentamento da pandemia. Hoje em nosso país, percebo que temos dificuldades entre a informação e a comunicação, desde que apesar do medo, da insegurança, e da incerteza, ambos estão comprometidos pela falta de conhecimento e, consequentemente, está atrelado a educação. Quando observamos países que passaram por momentos como o nosso, a tomada de decisão governamental foram mais assertivas, compreendidas e respeitadas pela população, o equilíbrio e o socorro psicológico foram ajustes essenciais para que, juntamente, com o entendimento de todos obtivessem resultados melhores, sendo ambas aliadas nesse grande embate afetivo-social que enfrentamos.

SS – Como você observa a educação brasileira do século XXI?

AS: Essa pergunta é muito complexa. Precisaria de pelo menos umas quatro entrevistas para responder (risos). Bem, na verdade, temos pelos menos duas realidades muita distintas nesse cenário: a educação pública e a privada. Além disso, o trajeto educacional é amplo, vai das séries iniciais a pós-graduação. Cada universos tem suas peculiaridades. Levando tudo isso em conta, prefiro deixar essa questão para ser discutida em outra situação, com mais tempo ou com o destaque de pontos específicos a partir dos quais possa dirigir meu ponto de vista.

FF: : A educação brasileira passa por desafios de adaptação, os contextos educativos são espaços onde as crianças e os adolescentes devem se desenvolver de maneira formal ou não, em atribuições de princípios éticos, morais e civis. Sabemos que ainda nos tempos atuais, uma boa população não possui acesso a educação, ou o tem de forma precária, reduzindo também a valorização do meios educativos, e consequentemente de seus colaboradores, tais como os professores, etc. A escassez a precariedade de informação, de continuidade de projetos que outrora agregavam ao processo educacional, traz também ao aluno um distanciamento afetivo e emocional da proposta de futuro, pois a ele foi negado antes mesmo de poder conhecê-lo.

A naturalização do “não preciso saber” só preciso passar de ano, estigmatizou uma geração, em detrimento de outra que possui excessos de informação e pouca comunicação. Temos visto com mais frequência que em outras décadas, um grito de socorro dessas crianças e a adolescentes, os níveis de ansiedade infantil, depressão e dificuldades de aprendizagem tem aumentado significativamente, e em grande maioria os diagnósticos precipitados, aumentando o uso de medicamentos tais como ritalina.

Faz necessário a revisão de vários contextos em nossas esfera educacional, dentre eles arrisco a dizer a produção dos próprios vínculos de aprendizagem.

“Estamos vivendo algo temporário e, quando isso passar, o saldo positivo pode ser muito superior as perdas. Mas, isso depende, em grande parte, do modo como passaremos por tudo isso”. Anna Silvia

SS – Qual mensagem gostaria de deixar para os nossos leitores?

AS: É importante termos claro que estamos vivendo algo temporário e quando isso passar o saldo positivo pode ser muito superior as perdas. Mas, isso depende, em grande parte, do modo como passaremos por tudo isso. Podemos ser ativos ainda que reclusos em nossos lares. Muito pode ser feito, desde a interação com o outro até conhecer novas áreas, realidades, livros, filmes, entre tantas possibilidades. É na interação com o outro, com a tecnologia que identificaremos atividades que podem promover prazer e alegria durante a quarentena. Alguns desses novos hábitos podem até ser integrados de modo mais duradouro em nossas vidas. Precisamos nos permitir.

FF: Estamos em meio a uma situação sem precedentes, porém que nos remete a refletir sobre a totalidade humana. Temos visto e acompanhado pela mídia, o dilema humano em lutar pela vida. O instinto de preservação diante da finitude coloca o homem em sua plena vulnerabilidade. São tempos sombrios, onde diante do caos o único lugar seguro é voltar-se para dentro, em uma tentativa de encontrar respostas postergadas durante décadas. E quando nos deparamos conosco, surge um grande vazio, os questionamentos são inúmeros, falamos de nós para nós mesmos, e temos medo de não termos uma nova chance. Não há momento mais propicio para reavaliar a vida, a si e o outro, e dentro do silêncio lutar, não somente para sobreviver, mas, talvez para viver pela primeira vez outra vez.@

Ao ler atentamente essa entrevista, podemos perceber que a subjetividade humana, ainda, é um grande mistério. E por meio do autoconhecimento e autocrítica, somos convidados a repensar nossas relações humanas e afetivas. Não é uma atitude simples de solucionar, mas, depende de cada um encontrar suas respostas.

Nosso muito obrigado as nossas entrevistadas e a você leitor, por chegar até aqui.

Até a próxima!         

Sidnei Rodrigues de Andrade
Colunista

*Sidnei Rodrigues de Andrade – Bibliotecário, apaixonado pelo universo da literatura, Co-autor do livro Despertar do Mestre e colunista do Sala Secreta, Blog da Monitoria Cientifica FaBCi ( Admiráveis Bibliotecas Comunitárias) e Bibliothiking. Nas redes sociais, administrada as páginas do Facebook: Biblioteconomia –FESPSP, Atividades Complementares FaBCi – FESPSP e co-administrada a Rede de Pesquisador@s das Literaturas de autoria Negra e Afro-Brasileira.

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