Meu anjo chamado Gabriel

Por Elias Batista dos Santos, 3sg.king

Eu acho que herdei essa convicção dele, me manter sóbrio e sereno, pois sabia que se tudo, tudo desse errado poderia contar com ele. Me sentia como um soldado que saiu para a guerra, primeiro aos 16 anos para trabalhar por sua indicação e confiança, e depois aos 29, quando uni minha vida a da minha esposa para criarmos nossa família. Ainda me lembro quando tomei coragem para falar dessa decisão e ele me deu vários conselhos que guardo no meu íntimo.

Contudo, sempre me vi calmo e tranquilo, pois sabia que poderia bater na sua  porta quando fosse preciso e seria ajudado, como em inúmeras vezes, quando precisei do seu amor, carinho e conforto.

Às vezes, me via nele em diversas situações, nossas atitudes eram parecidas. Éramos mais caseiros, gostávamos de fazer o café da manhã e ser comunicativos com os vizinhos. Segundo ele, aprendi também acordar cedo e gostar do trabalho.

Ele gostava muito de músicas e de dançar com alegria, e eu também peguei gosto pela música e dança, assim como ele. Achava lindo vê-lo dançar forró,  arrastando o pé e fazendo careta como hoje faço em casa quando estou me divertindo com a minha esposa. Adorava aquele olhar franzido de reprovação quando ele não gostava de algo e o seu sorriso, ahhh … que sorriso lindo!!!

Quando criança ficava até tarde na sala assistindo TV no sofá e acabava dormindo. E ele, com aquela força e amor,  me pegava pelos braços para  dormir no seu quarto aos pés de sua cama, sempre segurando os pés da minha mãe. Confesso, que às vezes estava acordado, mas, permanecia com os olhos fechados  esperando pacientemente ele me pegar pelos braços, pois adorava seu colo.

Havia algo que gostaria de ter como ele, mas , sabia que não tinha na mesma proporção: seu ímpeto de realizar ações. Quando me contava a sua história no campo, começou a trabalhar aos 6 anos de idade e até os 18 anos entregava todo seu ordenado para meu avô, eu ficava admirado e isso me fazia refletir sobre a magnitude do caráter dele.

Sua história de sair de uma cidade do interior de São Paulo (Franca), e vir somente com as roupas do corpo para a cidade grande para lutar e tentar oferecer uma condição melhor para minha mãe e meus irmãos mais velhos, também, me enchiam de orgulho. Mesmo sabendo da história de cor, sempre pedia para contar por receio de esquecer cada detalhe dessa linda jornada que montava na minha cabeça como um filme.

Sempre que eu descia na estação Jabaquara ou Conceição, linha azul do metrô que corta a cidade de norte a sul eu lembrava que suas mãos tinham ajudado a construir aquela linha, ele se orgulhava muito desse feito, apesar de recentemente ter dito que havia perdido vários amigos nessa construção por acidentes na obra.

Sempre fiz uma leitura da vida de que nada é impossível ,pois ele sempre lutou e conquistou tudo que se propôs a fazer, mesmo com limitações acadêmicas, já que praticamente não teve por ter começado a trabalhar muito cedo.
Outro dia conversamos sobre quando, ainda criança, foi picado por uma cobra e todos acharam que não ia resisitir, e sobreviveu contrariando a todos.


Por essa e outras, tinha convicção que se tudo desse errado ele me acolheria de volta, sabe!? Ouvi isso do meu pastor em várias pregações e toda vez que ele dizia isso me vinha aquela certeza que tinha meu porto seguro e que, mesmo sem minha mãe, poderia bater em sua porta e dizer:

– Pai, me ajuda. Posso voltar?


Várias vezes ele falou:

– Filho, você tem a mim, tudo que fiz foi por você e seus irmãos. Se não conseguir eu arrumo um lugar pra você aqui. Fica tranquilo.


Isso me confortava e dava a certeza de continuar e saber que poderia arriscar, pois tinha a minha Jerusalém para retornar.


Nos últimos dias de vida da minha mãe, era uma criança de 11 anos e 8 meses, não tinha muita noção do que estava acontecendo, minha sensação era que quando ela saiu pela porta de casa rumo ao hospital ela logo voltaria. Eu tinha essa certeza dentro de mim, mas ela não voltou.

Hoje, apesar dos 39 anos, com outra consciência e maturidade, me vi como aquele menino em 25 de Abril de 1992 que esperava o retorno de sua mãe.

Hoje, perdi essa sensação de saber que meu herói inabalável e indestrutível não está mais de braços abertos para me receber aqui na Terra.

Descanse em paz, meu anjo chamado Gabriel.

2 respostas

Deixe sua resposta aqui