IDENTIDADE FEMININA, UMA ABORDAGEM CONTEMPORÂNEA

Sidnei Rodrigues de Andrade*

Saudações, parceiros!

No século XXI, as mulheres têm protagonizado  vários setores socioeconômicos no Brasil e no mundo. Por tudo isso, nada mais do que justo aprendemos algumas das nuances da identidade feminina.

Mas, antes de iniciarmos a entrevista de hoje, compartilho uma história em quadrinhos que explica a enorme contribuição das mulheres em nossas histórias de vida:

Mulheres na Luta: 150 anos em busca de liberdade igualdade e sonoridade de Marta Breen e Jenny Jordahl (Editora Seguinte).

No livro, autoras destacam batalhas históricas do movimento feminista em quadrinhos | Imagem: Divulgação Amazon

Conheça, a seguir a nossa entrevistada:

Kelly Guimarães é graduada em Filosofia e pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP (Universidade Metodista de São Paulo) e, atualmente, está se especializando em Neurociência e comportamento pela PUCRS.

Além de atuar na concepção e mediação de ações de fomento ao hábito do leitor na Secretaria Municipal de Cultura e Juventude de São Bernardo do Campo, Kelly também palestra sobre comportamento, escreve prosa filosófica, brinca com mídias sociais, cuida da casa, da filha e da cachorra.

Sala Secreta – No século XXI temos atores sociais ocupando os principais espaços estratégicos de lideranças no âmbito político, educacional e cultural. A feminilidade mundial e brasileira está entrando cena?

Kelly Guimarães Há que se definir o termo feminilidade, pois se estamos falando de um éthos marcado pela potência do feminino, podemos reconhecer que sim, embora a atuação de uma mulher na liderança de tais instituições e o caminho percorrido até esse lugar, a meu ver, a exige, muitas das vezes, recuar dessa feminilidade para ser vista e respeitada, posto que alguns dos atributos do feminino, ao invés de serem entendidos como positivos são vistos como negativos, pensamentos esse que enfraquece o reconhecimento de sua capacidade.

SS- Pela sua observação há diferença entre o feminismo e a feminilidade?

KG- Quando falamos em feminismo, estamos falando de um movimento que busca a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas, portanto, estamos falando de feminilidade, estamos falando de uma dimensão biopsiquica, ou seja, o aspecto singular e necessário do gênero, e dentro dessa especificidade se manifesta uma gama de comportamentos que expressam a feminilidade, e isto é subjetivo. Acredito que há uma discussão sobre feminilidade muito rasa, que passa por construções sociais que não dizem “o que é?” mas determinam “como deve ser”, é então o momento de cada mulher olhar para si e para as outras e, num ato de alteridade e respeito, acolher cada uma dessas subjetividades, assim, como movimento se posicionar  para responder que o como é mais amplo e mais livre.

Os esforços pela igualdade de gênero andam a passos lentos e cada geração que avança deixa atrás de si uma outra que pagou alto preço pela sua liberdade, pela autenticidade de sua existência.

SS- A sociedade civil brasileira, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é formada por 60% de mulheres de todos os níveis socioeconômicos e político. Qual sua observação do posicionamento político de alguns indivíduos contra a igualdade social e a diversidade cultural humana?

KG- Esse posicionamento passa por um projeto social, educacional, que deseja que a população assim se construa perpetuando esse discurso que atende a uma parcela da sociedade que se mantêm no alto da pirâmide às custas de uma maioria empobrecida economicamente, culturalmente, academicamente e etc. Agora, ir contra a diversidade cultural não é só uma negação do humano como um crime contra homens e mulheres, e isso os medíocres fazem bem.

SS- Diante da pandemia global,  várias representantes femininas estão à frente nas tomadas de decisões. O historiador, Eric Hobsbawm diz em seu livro A era dos extremos (Editora Companhia das Letras): “A comunidade feminina será a principal liderança do século XXI”. O que você pensa sobre essa observação?

KG- A afirmação é plausível, o que me pergunto é se esse fenômeno traz consigo a superação das dificuldades que as mulheres enfrentam para conseguirem estudar, executar projetos, realizarem suas carreiras. Que ocupemos esses lugares, mas isto é uma parte da luta, a outra é: ainda que líderes, engravidamos, geramos e criamos filhos e isso ainda é  visto como algo que nos desabona, nos é imposto fazer a escolha, e quando optamos pela maternidade e pela carreira, somos altamente cobradas, pela família, pela igreja, pelo mundo do trabalho. Também o serviço doméstico ainda está muito associado à figura da mulher. Assim digo, creia: uma mulher numa liderança carrega consigo um mérito e uma carga superior a de um homem, porque ela não pode deixar de se preocupar com nenhuma dessas instâncias, pois é como se, uma vez gerada a criança, a maternidade é necessária e a paternidade ocasional, e que na vida doméstica a mulher cuida, gerencia e o homem ajuda, ou seja, não há responsabilidade real, é auxiliar, há algumas mudanças ocorrendo, mas ela é mínima e lenta.

Ir contra a diversidade cultural não é só uma negação do humano como um crime contra homens e mulheres, e isso os medíocres fazem bem.

SS- As ativistas intelectuais femininas Simone de Beauvoir, Hannah Arendt e Mary Shelley contribuíram para o desenvolvimento da sociedade civil. O machismo, a deseducação estrutural, desigualdade socioeconômica e política, atrapalham  e prejudicam o reconhecimento das mulheres no mundo contemporâneo?

KG- Sim, a história que se escreve é patriarcal, mas não porque os homens fizeram mais, e sim porque as mulheres não foram vistas, citadas, reconhecidas, foram silenciadas, ocultadas. E isso se naturalizou, está introjetado em nós, assim, o caminho em sentido contrário exige uma consciência sempre alerta, de olhar e pensar o mundo que se constrói por figuras do gênero feminino, porque estão todas lá, só precisamos olhar e ver!

Uma vez gerada a criança, a maternidade é necessária e a paternidade ocasional, e que na vida doméstica a mulher cuida, gerencia e o homem ajuda, ou seja, não há responsabilidade real.

SS-  Qual mensagem gostaria de compartilhar com os nossos leitores?

KG- Penso que os esforços pela igualdade de gênero andam a passos lentos e cada geração que avança deixa atrás de si uma outra que pagou alto preço pela sua liberdade, pela autenticidade de sua existência. No entanto, melhor que caminhemos, afinal, também somos boas em regenerar feridas e prosseguir!

E como forma de agradecimento, a filosofa e ativista literária Kelly Guimarães e aos nossos leitores, compartilho a música Pagú, “hino feminista” da MPB,  composta por Rita Lee e Zélia Ducan:

Gratidão!

Abraços, até a próxima!

Sidnei Rodrigues de Andrade
Colunista

*Sidnei Rodrigues de Andrade – Bibliotecário, apaixonado pelo universo da literatura, Co-autor do livro Despertar do Mestre e colunista do Sala Secreta, Blog da Monitoria Cientifica FaBCi ( Admiráveis Bibliotecas Comunitárias) e Bibliothiking. Nas redes sociais, administrada as páginas do Facebook: Biblioteconomia –FESPSP, Atividades Complementares FaBCi – FESPSP e co-administrada a Rede de Pesquisador@s das Literaturas de autoria Negra e Afro-Brasileira.

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Fotos: Pixabay e banco de imagens

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