ESPETÁCULO DE HORRORES

“O Estado matando nossos jovens através de seu braço armado, a ‘PM’: Despreparo? Coincidência? Abuso de Autoridade? Guerra Civil? Apartheid? ou Genocídio?

O escritor António Emílio Leite Couto 64, Beira – Moçambique mais conhecido como ‘Mia Couto‘ tem uma frase sobre o caos que é a seguinte: “A história da humanidade costuma ser a narrativa de suas guerras”.

Mia Couto, 64 – Beira (Moçambique)

Estamos vivendo nos últimos tempos dias difíceis e obscuros, tenho notado que os papéis estão se invertendo a cada dia e que me dá a impressão que fazer a coisa certa hoje em dia é um erro e fazer coisas erradas se tornou tão natural que muitas pessoas veem isso como “esperteza”, “oportunismo” e “ambição” em alta voltagem como heroísmo e vitória.

Ouço comentários de um extremismo profundo, um sentimento quase que canibal de pessoas que veem no insucesso de alguém uma grande oportunidade de colocar em prática seu sarcasmo ou destilar seu ódio para aniquilar o próximo, seja literalmente falando ou psicologicamente. Essa polarização pode impactar profundamente nossa sociedade de um modo geral em várias áreas que poderíamos estar evoluindo como seres humanos, mas estamos regredindo de forma exponencial e nos deteriorando como uma personificação da maldade.

Alguns acontecimentos ilustram o quão estamos perdendo valores e a nobreza em nosso cotidiano. Já não se vê corações contritos e esperançosos de enxergar um amanhã belo com energia positiva de que possamos ter um futuro melhor e sermos pessoas mais responsáveis com a dor do outro, mais caridosos e mais empáticos entre nós. Para entendermos o quão esse diagnóstico do caos está presente em nossa sociedade precisamos falar sobre alguns assuntos que nos rodeiam.

Há 5 anos houve uma chacina em Costa Barros no Rio de Janeiro, onde 5 (cinco) jovens de idades entre 16 e 25 anos foram assassinados com 111 tiros, sendo que 81 tiros foram disparados de fuzis e 30 tiros de pistolas. Wilton Esteves Domingos Junior (20), Carlos Eduardo Silva de Souza (16), Wesley Castro Rodrigues (25), Roberto Silva de Souza (16) e Cleiton Correa de Souza (18) voltavam de uma lanchonete onde comemoravam o primeiro salário recebido de um dos jovens que tinha conquistado seu primeiro emprego. Mortos por Policiais Militares que os confundiram com bandidos, mas nem sequer abordaram os jovens.

Chacina Costa Barros – Foto: Catraca Livre

Outra história ocorreu em 20 de Setembro de 2019 no bairro da Fazendinha (Rio de Janeiro), a menina Aghata Vitória Sales Felix (08), foi morta com tiros de fuzil efetuado por Policiais Militares quando voltava para sua casa e se encontrava dentro de uma Perua Kombi. Os PMs foram afastados da UPP e foram indiciados pro Homicídio Doloso. Daniela Felix (24), tia de Aghata perdeu seu marido por bala perdida há 5 anos, seu nome: Caio Moraes da Silva (20).

Caso Aghata – Foto: Agência Estado

Na favela da Rocinha (Rio de Janeiro), o Ajudante de Pedreiro Amarildo Dias de Souza, após ser detido por Policiais Militares em 14 de Julho de 2013 simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. Neste caso, 25 Policiais Militares foram denunciados, sendo que 12 foram condenados em primeiro grau e 8 em segundo grau.

Caso Amarildo – Foto: Veja/Rio

Outro caso ocorreu na cidade de Santo André na grande São Paulo, o adolescente Lucas Eduardo Martins dos Santos (14) também desapareceu e após 03 (três) dias de seu desaparecimento foi encontrado as margens de um córrego em local ermo distante de onde morava.

Caso Lucas – Foto: Portal R7

No início do mês (01/12), em uma ação da PM na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, morreram 9 jovens e 12 feridos durante a dispersão de um baile chamado Baile da 17. A favela é a segunda maior da cidade de São Paulo ficando atrás apenas da comunidade Heliópolis que na mesma noite ocorreu outro homicídio numa ação parecida da PM em outro baile funk que acontecia na favela.

Segundo a PM nas duas situações os policiais estavam atrás de suspeitos que adentraram a favela para fugir da perseguição policial e quando os policiais entraram na favela atrás dos suspeitos foram recebidos de forma ostensiva pela população que estava no baile funk, porém, segundo relatos dos moradores, comerciantes e pessoas que estavam no local na hora do fato disseram que não houve reação por parte da população em nenhum dos casos.

Vítimas de Paraisópolis: Fonte: Portal G1

O fato é que estamos em um fogo cruzado, onde quem vive nos bairros periféricos estão a mercê da violência que é vendida como solução para os nossos problemas sociais e camuflam problemas maiores que o estado tem o dever de nos oferecer obedecendo a Constituição Federal. Precisamos entender que devemos cobrar das autoridades que haja maior responsabilidade com o nosso dinheiro, pois eles se beneficiam do dinheiro público que são pagos por nós através de impostos, taxas, tarifas e multas que não são revertidos de maneira justa e honesta para a população que ao precisar de serviços do estado como saúde, educação, cultura, lazer, segurança e tecnologia somos acometidos de uma intransigência sistemática e preconceituosa de um estado elitista que visa tão somente os interesses dos poderosos.

Portanto, é fato que muitos de nós somos usados como marionetes e não estamos enxergando de fato que estamos sendo utilizados como peça nas mãos de quem nos odeia e quer nos limitar a achar que não somos capazes de realizarmos nossos objetivos e conquistar nosso espaço na sociedade criando mecanismos para que haja uma sociedade mais justa, livre e igualitária.

Temos que colocar na cabeça dos nossos jovens e crianças que existe sim vários caminhos que podemos exercer com civilidade e honestidade, para que não tenhamos finais infelizes como esses descritos acima e que possamos estar comemorando conquistas e vitórias para o nosso povo. Quem sabe essas crianças e jovens que foram mortos poderiam no futuro ser médicos, engenheiros, advogados, professores, juízes, políticos, músicos, artistas, esportistas, cientistas, etc. Enfim, temos que olhar para o futuro e nos perguntar o que pretendemos ser? Uma sociedade que construirá um futuro de paz, amor e esperança ou uma sociedade de rivais, com guerras, ódio e preconceitos?

Encerro meu texto com uma frase do ator, redator, roteirista, autor, escritor e humorista Pedro Cardoso, 56, Rio de Janeiro (BRA) que diz assim: “O Militarismo se assenta na hierarquia da autoridade dos superiores. Obedecer ordens sem contestar é o tabú pilar da ordem militar”.

Completa o escritor: “Educar é ensinar a liberdade e não a obediência”.

Pedro Cardoso, 56 – Rio de Janeiro (Brasil)

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