ENTREVISTA: GEISE ANJOS FALA SOBRE CARREIRA E NOVO VIDEOCLIPE, “TEM GENTE”

Faixa do álbum LP- Licença Poética, trabalho de estreia da cantora carioca, “Tem Gente” mostra a diversidade e pluralidade do povo brasileiro

Cantora, compositora e professora. Eis, Geisa Anjos: conciliando com maestria seus tão amados ofícios. Entre, e fique a vontade para conferir a íntegra do bate-papo que tivemos com a cantora que acaba de estrear o videoclipe de “Tem Gente”, música que integra seu primeiro trabalho autoral ‘LP’ – Licença Poética, que contou com a produção do músico e produtor, Marcos Eiras.

Assista o vídeo clipe da música #TemGente

Sala Secreta – Olá Geise, aradecemos a disponibilidade de nos conceder essa entrevista e falar sobre seu trabalho musical com os nossos leitores. Conta para gente como iniciou sua trajetória, quais suas referências musicais e a parceria com o Marcos Eiras?

Geise Anjos – Olá, me sinto imensamente grata em compartilhar um pouco da minha arte com vocês. A música me acompanha desde pequena, foi na igreja que me expus a ela, cantando em corais e solo.  A Black Music está muito presente nos meus estudos vocais.  Sou apreciadora da música brasileira no geral, neste cenário também o samba, seus elementos e sua contextualização. Gosto da maneira como a música traduz a vida, e da sua contribuição para compreender nossa experiência social. Meu pai também foi músico, compositor, cristão e minha maior inspiração. Sinto-me seguindo um legado.  Na música cabe toda minha verdade. Foi na música que encontrei o Marcos Eiras. Em alguns eventos de música, gravações, ele na guitarra e eu como backing vocal. A partir disso, fiz algumas participações cantando suas músicas. Foi compartilhando nossa arte que encontramos esse sincronismo e nos tornamos muito mais que parceiros na música, grandes amigos.

SS – Uma curiosidade, a música “Desembocando Sonhos” é parte de algum projeto. O que inspirou a composição?

GA – Sou professora. “Desembocando Sonhos” surgiu de uma conversa com crianças na faixa de 4 anos, no início do ano letivo de 2017. Falávamos sobre sonhos, a partir dali um percurso nas descobertas sobre os rios. A poesia nasceu, assim como as águas dos rios, sabendo-se que ao nascer está predestinada a desvendar novos caminhos, até encontrar o lugar onde finalmente desemboque. Desembocar não é o fim, é um mar imenso que desvenda sonhos infinitos. Como dizia Manoel de Barros: “Quem anda em trilho é trem de ferro, sou como água que corre entre pedras. Liberdade caça jeito.” Ali foi o início, minha primeira composição, abrindo caminho para o meu sonho na música. 

SS – Em março, você lançou o vídeo clipe do single “Vai ficar tudo bem”. Conte um pouco sobre o processo de criação da música.

GA – Essa foi uma das surpresas que a música me fez. Assim que recebi a notícia sobre a quarentena no Brasil, fiquei preocupada e angustiada. Foi aí que recebi a mensagem de uma mulher que admiro muito, onde disse: Geise cante no caos. “Vai ficar tudo bem”. Os pensamentos de esperança começaram a brotar, e eu sabia que aquele sentimento precisava ser partilhado. Compartilhei com o Marcos Eiras a composição, e sugeri que fizéssemos um vídeo caseiro, mas ele preparou um arranjo lindo e, para minha surpresa, no dia seguinte estávamos gravando essa canção. Convidei meus colegas de trabalho para participar desse ato de esperança e a Escola Stagium cedeu o espaço para filmagem do clipe. A Renata Stort (Renata Ilustra) compartilhou sua arte em forma de desenho e juntos, transmitimos essa mensagem de esperança.

SS – Qual sua proximidade com a literatura de Cordel?

GA – Os cordéis fazem parte da minha busca em conhecer mais a cultura do nosso país. O Cordel é um dos elementos da cultura nordestina que venho explorando a um tempo, entre eles temos a música, culinária, danças e a história do povo nordestino. O Nordeste é diverso, sua cultura acessível. Unida a essa descoberta, está minha prática pedagógica. Na intenção de potencializar a fala de crianças e adolescentes, na literatura de Cordéis, que eu mesma desenho, essas narrativas são transmitidas.

SS – Agora vamos falar sobre seu novo trabalho, o single “Tem Gente”. Qual mensagem que você quer transmitir com a música?

GA – Entendo que na experiência humana, somos atravessados pelo diferente o tempo todo. Escrevi essa música num momento que me via fazendo comparações, entre o meu jeito e o jeito de outras pessoas. Nesse conflito refleti que, tudo bem eu não agir ou reagir como o outro. Trouxe à memória todas as pessoas que me relacionei como amigos, conhecidos, parentes, colegas de trabalho. Foi refletindo como ser singular é um privilégio, que entendi o quanto o diferente dá-nos acesso a descobertas sobre a vida e o viver.

SS – A música faz parte de seu álbum de estréia “LP – Licença Poética”. Há previsão para o lançamento? Quantas faixas compõem o trabalho. Há participações especiais. O disco sairá por algum selo/gravadora ou será lançado de forma independente?

GA – Temos sonhado com o lançamento desde o primeiro passo para a gravação do LP. Estamos nos preparando para isso, mas diante dessa pausa que fizemos ainda não temos uma data prevista. Queremos muito fazer esse ano ainda, são 7 faixas que separamos para este trabalho. O Marcos Eiras é guitarrista, violonista, compositor e produtor musical. Pianista respeitado no cenário musical, André Freitas é conhecido pelo bom gosto que tem em cada nota que toca. André Santos vem de uma formação musical de corais, ele fez todos os backing vocals do LP.  Rael Lúcio gravou os baixos do LP. Ele já trabalhou com grandes nomes da música. Flávio Barba gravou cavaco e bandolim do LP. Educador, jazzista e brasileiro. Adonias Júnior é engenheiro de áudio. Adonias foi o responsável pela  mixagem e masterização do LP. É um trabalho independente.

SS – Mudando um pouco de assunto. Qual sua percepção, como educadora, deste momento que estamos passando pela pandemia do coronavírus?

GA – É um momento de reinventar a prática docente, a educação está além das quatro paredes de uma escola, temos experimentado essa nova forma de aprender. Mantenho-me muito confiante e esperançosa, encontro na arte um respiro para encarar tudo da forma mais positiva possível.

SS – Queria que nos contasse quem são as pessoas que participaram do videoclipe. E se puder falar sobre alguns deles seria interessante, pois tem tudo a ver com a proposta do clipe.

GA – Convidei essa gente, diferente uma das outras. Reencontrei depois de anos Jay Batista, com seu estilo marcante e talento musical impossíveis de esquecer. Fernando Hugo, um amigo de longas datas, do basquete, representatividade presente. Joice Anjos minha irmã, se encaixa bem no trecho, “gente que é fuga”. Jaqueline Anjos minha sobrinha, “morada”. Vera Lúcia, anfitriã do projeto social que voluntario a alguns anos, ela é “morada”, “euforia” e tudo que ela puder ser. Evine e seus cabelos coloridos, sua doçura, uma artista, design de moda entre outras belezas que ela possui. Joice Nascimento é uma “figura”, sua energia e espontaneidade embalam nossa relação de amizade. Igor é um adolescente encantador, artista talentoso nos desenhos, meu padrinho de casamento, “argumenta tudo”. Júlio é de exatas, tive o prazer de conhecê-lo no ambiente de trabalho, genial, “calcula o mundo”. Ed Paulino “caminha junto”, considero como irmão. Compositor e amigo pra todas as horas. Welyda uma mulher forte e empoderada, parceira na música e na vida, ama a Deus e derrama amor em tudo o que faz. O Thiago é o meu cúmplice em tudo isso, o homem que o amor me apresentou, me acolhe com minha arte, é um homem de fé, partilhamos da fé em Jesus. Eu vivo “avoada” e tem quem diga que eu sou mais calma do que a “calmaria”. Somos todos tão diferentes, cada um aperfeiçoa algo na minha existência. Gratidão por essa gente que é o que é.

SS – Essa pergunta vai para o Marcos Eiras, que assina a produção musical e direção  dos vídeos da Geise Anjos. Nos deixe saber da sua caminhada como músico, produtor e diretor.

Marcos Eiras – Minha formação é de Design, mas eu sempre amei cinema. Por isso, desde muito cedo eu tenho contato com vídeo. Acredito que o cinema assim como a música tem o poder de nos levar pra outro lugar em segundos. No trabalho da Geise eu assumi  a direção dos vídeos porque era mais fácil para coisa acontecer, a verba é curta, mas  a criatividade não. Em “Vai ficar tudo bem” , fizemos tudo com nossos celulares. Já em “Tem Gente”, tivemos mais de vinte pessoas envolvidas na produção. Um grande diferencial foram as imagens que o Ed fez comigo, com uma câmera Sony e um bom jogo de luzes. E para não perder o costume, rodamos o clipe numa laje em Diadema.

Eu tive a dadiva de nascer no Brasil, um país que tem no seu maior tesouro essa mistura de raças, cores e etnias. Nesse contexto, eu que sou carioca, vim cedo pra São Paulo. A música carioca prevaleceu nas minhas veias, porém nas ruas de Sampa conheci o Rap, me apaixonei e virei DJ lá nos anos 90. E ali começava minha vida na música. Depois ganhei minha primeira guitarra da minha irmã mas velha. Mas, antes disso eu tinha um violão velho doado por um amigo, na qual compus várias músicas. Com o tempo, passei a tocar na igreja, em bandas de baile e acompanhei artistas. Mas, meu maior prazer sempre foi compor. Sem contar, que tive o prazer de realizar um sonho antigo de fazer parte de um grupo de Rap: o Coletivo 02- fundado por mim e meu amigo DK, em 2011 . Foi quando conheci o Dee, DJ Claytão e gravamos nosso CD com o FiliphNeo.

Depois do termino do grupo, fui questionado por uma amiga sobre aquilo que eu era de fato. Respondi:  compositor. E ela questionou: Então, por que não grava o seu disco? E assim, nasceu o meu primeiro trabalho autoral, o EP “Entre outras coisas” , dando início a uma nova fase. Pela primeira vez, estive a frente do palco, não só tocando, mas, também, cantando. Depois lancei o single, “Depois do Carnaval” pelo selo Sala Secreta, uma parceria que me ajudou a ver com outros olhos. Ano passado, lancei o single Copacabana, um duo meu com a cantora de Jazz Brazuca Adyel Silva com quem tenho gravado outros clássicos do Tom Jobim, Vinícius, Gil e Caetano Veloso. 

SS – Como está sendo a experiência de trabalhar com a Geise Anjos. Quais são os principais desafios nesse processo?

ME – Eu amo compor e acho um baita desafio “vestir”a composição de outros compositores. A Geise tem muita poesia em tudo aquilo que ela faz, então achei precisávamos pensar no conceito. A parte de letra e as histórias de cada canção estavam muito bem definidas. Por isso, parti para a rítmica, pois inicialmente as músicas estavam todas meio que no mesmo andamento. Depois, o baixo do Rael Lúcio fez sua parte dando swing a cada batida! O André Freitas gravou os pianos e para várias sobraram opções para escolher nos takes da mixagem. Teve participação do Flávio Barba no Bandolim, Cavaco e violão de samba. Tem os vocais maravilhosos do André Santos que gravou os backs e contra cantos. Agora, o grande desafio era misturar todos esses elementos acústicos com percussões gravadas e outras sampleadas. Acho que conseguimos! 

SS – Ao escutar a música e arranjos, um misto de sensações se fizeram presente nos sons da década de 70, principalmente nos feitos pela gravadora Motown. Há nuances de Marvin Gaye, Steve Wonder e um leve toque dos tempos áureos do ícone Michael Jackson. Essa era a ideia dos arranjos?

ME – Por isso sugeri o nome “Licença Poética”, porque nesse trabalho tem citações a Marvin Gaye, Dominguinhos, Clara Nunes, Stevie Wonder, Caetano, enfim, tudo com uma pitada eletrônica para contextualizar cada arranjo e conectar os mesmos com os dias de hoje. Sem deixar de lado a percussão africana, que está presente em boa parte do LP. Em algumas faixas, trabalhamos quase como beatmakers (produtores de instrumentais eletrônicos) sampleando (processo de retirar trechos de músicas para transformar em outros instrumentais) e somando com vários outros elementos.

SS – Voltando agora para a Geise, você já conhecia nosso trabalho com a música, cultura e comunicação?

GA – Não conhecia, mas foi um imenso prazer conhecê-los!

SS – Geise, finalizando nossa entrevista, fique à vontade para mandar recados, agradecimentos e claro, uma mensagem para os seus fãs e todos aqueles que vão te conhecer através da sua arte:

GA – A maior arte que possuímos é a arte de amar. Eu, uma carioca tímida, encontrei na música e na arte o lugar seguro para ser quem sou. Tenho muita fé em Deus, e carrego comigo o ideal do amor. Sonho com um mundo menos desigual, onde as crianças caminhem seguras. Em Licença Poética, a brasilidade, compartilho histórias do nosso povo, da nossa gente. Canto a vida, com a leveza da poesia. LP abraça a todos e está onde o amor encontrar lugar. Sintam-se a vontade para compartilharmos a nossa arte.

Contatos Geise Anjos

e-mail: Geiseanjos4@gmail.com | Instagram: @geiseanjos | Youtube: Geise Anjos | Facebook: Geise Anjos 4

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