EMANCIPAÇÃO FEMININA NEGRA AFRO-BRASILEIRA

Intelectuais e ativistas negras, Carolina Rocha dos Santos e Patrícia Anunciada, compartilham percepções da emancipação feminina negra afro-brasileira no universo literário

Sidnei Rodrigues de Andrade*

Para compartilhar as reflexões e percepções da emancipação feminina negra afro-brasileira no universo literário, conversamos com as intelectuais e ativistas negras Carolina Rocha dos Santos, mestre em Literatura Crítica Literária, professora da rede pública-privada e  idealizadora do Clube de Leitura Café Preto SP; e Patrícia Anunciada, mestre em literatura, professora, pesquisadora, escritora e BookTuber no canal Letras Pretas, no YouTube.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista para o Especial Mulheres Em Luta:

Sala Secreta –  Falem um pouco das suas trajetórias pessoais e profissionais, enquanto mulheres negras afro-brasileira.

Carolina Santos: Sou professora da rede pública e particular de São Paulo há 7 anos e, há 2 anos sou mediadora de um clube de leitura sobre literatura negra e periférica @cafepretosp.

Minha formação acadêmica aconteceu na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) onde fiz dupla habilitação em Português e Grego Clássico. Posteriormente, fiz uma formação lactu sensu para professores de Português, cuja proposta era criar uma sequência didática com base em gêneros textuais. Em 2017, defendi dissertação de mestrado pelo departamento de Literatura e Crítica Literária da PUC-SP cujo tema tratava da literatura negro-brasileira (A Descoberta do frio de Oswaldo de Camargo: a inscrição a novela no espaço ficcional da literatura negro-brasileira).

Patrícia Anunciata: Sou uma mulher negra nascida e criada na periferia da zona sul de São Paulo, filha de nordestina. Estudei todo o ensino fundamental e médio em escolas públicas. Fiz faculdade de Letras e me tornei professora concursada nas redes estadual e municipal. Vim de uma família humilde, porém como filha de professores sempre fui incentivada a estudar e a trabalhar. Atualmente, trabalho como professora de Leitura na rede municipal, colaboro no site Blogueiras Negras e sou autora do livro “O Feminino na Poesia: Antologia Poética de Professoras Poetas.

SS – O livro do autor pesquisador, Joel Zito Araujo: A Negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira-  traz críticas de que algumas “imagens” dos cidadãos negros não condizem com a realidade.  Como você analisa esse argumento?

CS: Os negros, costumeiramente, são retratados com base em estereótipos – a  mulher negra é mãe apenas ou sexualizada e o  homem negro é o “amigo” ou o bandido. Fato é que pessoas negras não contam sua história ou não têm diversidade em papéis dramáticos, como analisou Lázaro Ramos em seu livro “Na minha pele”. Outro aspecto que precisa ser considerado é que não existe racismo sem capitalismo e, uma vez que as grandes mídias são patrocinadas por grandes capitalistas, a representatividade ficará comprometida porque essas empresas apenas mantêm o status quo. Mas então, como “furar a bolha?” Algumas recentes produções do cinema americano nos mostram que é possível – Pantera Negra, Corra, Nós….Por aqui, vamos nos contentando com algumas produções de Lázaro Ramos, Antônio Pitanga e do próprio Joel Zito Araújo.

PA: Acredito que ainda há reprodução e manutenção de muitos estereótipos relativos às pessoas negras. Geralmente, elas são representadas de uma forma negativa, desprovidas de bom caráter, até mesmo de humanidade. Ainda hoje, predomina a imagem de negro(a) de “alma branca” e, também, da “mãe preta”.

SS – Quais sãos os cidadãos negros afro-mundiais e brasileiros que você admira. E por quê?

CS: Não acredito em representantes da comunidade afro-brasileira e nem em comunidade afro-brasileira. Explico: a negritude não atua com representantes porque somos diversos. E defendo o termo preto/negro porque no Brasil a discriminação se dá pela cor da pele, claro que na origem se deve à escravização de africanos, mas é o fator cor de pele que atua mais cruelmente em nosso cotidiano. Na literatura, admiro o trabalho de mulheres como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Cristiane Sobral, Cidinha da Silva, entre muitas mulheres. Nomes como Malcom X, Martin Luther King, Nelson Mandela, Kabelengue Munanga, Milton Santos são referências importantes para nós. Mas não deveriam ser vistos como nossos representantes, mas, como intelectuais importantes para a humanidade e importantes para o conhecimento acadêmico.

PA: Admiro muito a escritora Cristiane Sobral e o escritor Cuti, pois eles desempenham um papel importantíssimo ao publicar obras poéticas em que pessoas negras são representadas de forma positiva e também propõem uma reflexão sobre como o racismo e o machismo atuam na sociedade.

SS – Boa parte da sociedade brasileira não aprimora três quesitos básicos: conhecer suas subjetividades (espiritual/psicológica); utilizar instrumentos necessários da sociologia/política para entender a diversidade cultural humana; e  conhecer a própria história. Qual a sua percepção crítica?

CS: De fato conheço pouco sobre minha origem – convivi com minha bisavó, se alguém ousasse perguntar não tinha almoço de domingo. Claro que deveria ser dolorido falar do passado. Mas, como disse Conceição Evaristo, estive cercada de palavras antes das letras…. são histórias muito ricas vinda, principalmente, das mulheres da família. Mulheres negras que me ensinam muito.

PA: A sociedade brasileira ainda tem uma mentalidade escravocrata, racista e machista. Valoriza-se muito a cultura dos povos europeus ao passo que a cultura da população negra é desprezada, haja vista a intolerância religiosa que faz com que as religiões de matriz afro-brasileira sofram severos ataques. Falta a devida inserção e valorização da população negra na sociedade brasileira.

SS –  Como você observa alguns cidadãos negros que são contra aos engajamentos dos movimentos sociais afro-brasileiros?

CS: Eles são tão vítimas do racismo como nós, porque reproduzem o que aprenderam, como bem analisou Malcom X a respeito do negro da casa e o negro do campo. Essas pessoas precisam se libertar das correntes dos racistas, no entanto, não é fácil, é um processo doloroso se libertar de uma educação bancária, exige demais e por conta de uma situação financeira pouco favorável ou para angariar status social essas pessoas se rendem às amarras do racismo. Mas essa escolha tem uma contrapartida: ao sinal da menor falha, a branquitude lembrará novamente essas pessoas do seu lugar de subalternidade.

PA: Acredito que essas pessoas precisem conhecer melhor a atuação dos movimentos sociais, a fim de compreender por que eles são necessários e quais conquistas foram alcançadas. Nenhuma das conquistas da população negra foi entregue, todas elas foram resultado de luta, de resistência e, com certeza, os movimentos sociais têm um papel muito importante. 

SS – A sociedade brasileira tem consciência que há legislações a favor da comunidade negra afro-brasileira?

CS: Sim, não falta informação. Falta educação, falta formação. Atuo em escola há 7 anos, e posso afirmar com precisão que a educação pública é eurocêntrica. Ninguém nos ensina a amar nossa etnia. Por isso, defendo mudanças que partem de políticas públicas, tais como cotas raciais em universidades, para que os professores de base estejam preparados para educar sobre a nossa história, que não dependa apenas do samba enredo da Mangueira para aprender.

PA: Tudo indica que não. A população negra constantemente é vítima de preconceito racial e discriminação, e muitas vezes não tem consciência de seus próprios direitos. A informação dificilmente chega e a justiça no Brasil deixa (muito) a desejar.

SS – Como você observa a Educação Brasileira do século XXI?

CS: A educação está em constante mudança. Em pouco tempo de atuação já passei por currículos que conversam com o construtivismo, com as múltiplas inteligências, com as metodologias ativas e a chamada pedagogia da presença. As bases teóricas são muito importantes para um bom trabalho, no entanto, a escola é mais que conhecimento, a escola também atua enquanto sociedade. Sendo assim, é importante trazer à escola a comunidade. Todos precisam saber que educação é importante e exige investimento. Não é uma “mangueira furada”, como disse Joice Hasselmann, deputada federal (PSL-SP). Todo empresário sabe que, para se manter competitivo no mercado, deve sempre reservar parte da receita em investimentos/inovação. Por quê não pensamos da mesma forma quando o assunto é educação?

PA: A educação tem sofrido sérios ataques do governo e, também, da sociedade em geral, mas ela é a única forma de promover a conscientização para a luta pela equidade, pela justiça. Ela tem um papel extremamente importante, é um instrumento de transformação de mentalidades e, principalmente, de reflexão sobre a organização da luta contra o racismo estrutural, o machismo, a homofobia, a desigualdade social dentre outros.

SS – Qual mensagem que você gostaria deixar para os nossos leitores, neste Dia internacional das Mulheres?

CS:

PA: Que cada um(a) de nós, enquanto sociedade, reconheçamos nossa contribuição para a manutenção do machismo e do racismo em nossa sociedade. Se hoje o Brasil é o quinto país do mundo que mais mata mulheres, a sociedade brasileira certamente é conivente com o assassinato delas e não tem lutado de forma efetiva contra a violência. Que os estereótipos e discursos que naturalizam, banalizam e até mesmo justificam a violência contra a mulher sejam revistos e novas atitudes deem lugar a práticas racistas e machistas.

Nesta entrevista, tivemos citações de excelentes referências bibliográficas que irei analisar, ao longo do ano, na coluna que escrevo aqui, no Sala Secreta.

Me despeço, desejando um Feliz Dia das Mulheres, em especial a Carolina Rocha e Patrícia Anunciada pela entrevista espetacular!

 Até a próxima!

Sidnei Rodrigues de Andrade
Colunista

*Sidnei Rodrigues de Andrade – Bibliotecário, apaixonado pelo universo da literatura, Co-autor do livro Despertar do Mestre e colunista do Sala Secreta, Blog da Monitoria Cientifica FaBCi ( Admiráveis Bibliotecas Comunitárias) e Bibliothiking. Nas redes sociais, administrada as páginas do Facebook: Biblioteconomia –FESPSP, Atividades Complementares FaBCi – FESPSP e co-administrada a Rede de Pesquisador@s das Literaturas de autoria Negra e Afro-Brasileira.

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