EM TEMPOS DE COVID-19, TRAFICAR INFORMAÇÃO É CONSCIENTIZAR E SALVAR VIDAS!

Nas quebradas, o racismo e a pandemia têm se apresentado de forma mutante. Ambos são invisíveis. E a naturalização da morte devido ao genocídio da população negra, torna-se um risco iminente à vida frente a pandemia

Por Cristiane Dias, B-girl Cris*

É noite de lua cheia e hoje sua claridade tinha tudo para protagonizar, de repente uma nuvem a encobriu, inicia-se uma disputa de sons entre o barulho ensurdecedor dos trovões, relâmpagos e vento. Na busca pelo silêncio, lá no fundo ainda ouço um sonido das sirenes! São as ambulâncias que circulam no entorno da Marginal Pinheiros em tempos de Covid-19.

Recorrendo ao pensamento de Carolina Maria de Jesus, pego-me imersa em suas dores enquanto a chuva passa, recordo do seu relato de um dia chuvoso e de manifestação, aos 13 de maio de 1958. Neste dia, a autora finaliza sua reflexão dizendo: “eu lutava contra a escravatura atual – a fome!” (p.32). O grito calado de uma mulher preta, favelada e mãe solo, denuncia entre linhas as mazelas de uma sociedade racista, machista e patriarcal. O anseio por saciar a fome de seus filhos e a luta pela sobrevivência são relatados através do único meio que a autora encontrou para desabar, a escrita. O desespero e a necessidade de encontrar uma saída seja como catadora ou diarista, vão conduzindo a autora a encontrar mecanismos por meio de um espaço de denúncia e de certo modo acolhedor a sua dor – a escrita de sua voz.

Moradias precárias e falta de saneamento básico contribuem para proliferação assustadora do Covid-19 entre a população das favelas brasileiras

Em nossa atualidade e em tempos de Covid-19, aos 13 de maio de 2020, Relatório Situacional do Ministério da Saúde em conformidade com o monitoramento da Organização Mundial de Saúde (OMS), as Américas tornaram-se o epicentro da crise. O Brasil passou a ser o segundo país mais atingindo e o terceiro no mundo. Com isso, na favela explode dois problemas centrais: a fome e a morte.

Como vimos, dentro da realidade de Carolina, a fome para nós é reincidente e a morte banalizada. A naturalização da morte devido ao genocídio da população negra, torna-se um risco iminente à vida frente ao Covid-19, primeiro porque há uma impossibilidade de manter o distanciamento social; segundo pela urgência de resolver as necessidades imediatas: alimentar-se e enterrar seus mortos assassinados pelo Estado; terceiro porque a precarização dos serviços de saúde pública contribui para a dificuldade de prevenção.

Morrer de Covid-19 é relativo para essa população, uma vez que se trata de uma doença invisível e incompreensível, não caiu a ficha!


Os critérios de prevenção apresentados pela OMS, não condizem com a realidade vivida do povo da periferia. Veja, o primeiro ponto fundamental de prevenção do vírus é justamente lavar as mãos, quando sabemos que parte da população oriunda das favelas enfrenta a falta de saneamento básico que afeta diretamente no bem-estar social, tornando uma ameaça à saúde pública. Então, o vírus tende a se proliferar de uma maneira assustadora dentro de espaços com moradias precárias.

Além disso, o serviço de prevenção que é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não atende à demanda, com isso a população procura os serviços de saúde somente quando há um risco de encurtar a vida. Partindo das experiências dos moradores oriundos das periferias em tempo de Covid-19, analisaremos o relato do caso abaixo: 

O Covid-19 é foda principalmente em pessoas como no meu caso, diabetes e asma, agravando a infecção para uma pneumonia. O descaso e despreparo do primeiro atendimento contribuiu e muito para o agravamento do meu quadro, não fui entubado porque no pico da falta de ar eu estava em casa…. Esse descaso e despreparo dos agentes de saúde das quebradas contribui para que haja um número maior de mortes de pessoas POBRES. Quando fui na quarta-feira, dia 20 de maio, no posto estava com quase 38 de febre, foi feito um Raio-X que apresentou um quadro de pneumonia e vários sintomas da Covid-19 (falta de ar, sem paladar e olfato), me mandaram para casa com uma receita de Azitromicina, Loratadina e Dipirona. No dia 7 de junho, fui para outro posto, já que estava no isolamento na casa de meus familiares, onde me colocaram me internaram, após a realização de outro Raio-X que apresentou manchas, solicitaram a Tomografia. Durante esse processo fiquei 14 horas em contato com outras pessoas, sem comer e beber água, ou seja, fiquei totalmente desidratado, debilitado e com fome. No outro dia, fui transferido para o hospital de campanha do Ibirapuera uma diferença gritante, fui monitorado a cada 3 horas, de 20 em 20 minutos a equipe de enfermagem vinha perguntar como estava me sentindo, uma nutricionista fez o cardápio a partir do meu gosto alimentar, outro nível. Então é necessário um melhor preparo para os profissionais que atuam nas periferias ou nosso povo vai continuar morrendo tendo como fator a negligência do Estado.

No front da prevenção da Covid-19 nas favelas, Vidal já está em fase de recuperação após contrair o novo coronavírus | Foto: arquivo pessoal




Este paciente oriundo da periferia de São Paulo nos autorizou a divulgar o seu caso, uma liderança da cultura Hip-Hop e que estava no front da prevenção da Covid-19 nas favelas. Nosso amigo e rapper, Vidal do grupo Liberdade e Revolução, por negligência médica teve seu quadro agravado e seus pulmões foram comprometidos em 25%, por sorte não veio a óbito e hoje encontra-se em fase de recuperação – em casa. Isso é um crime contra a humanidade, dado disposto no artigo 196 da Constituição Federal (1998), que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação”. No contexto brasileiro, o direito à saúde foi uma conquista do movimento da Reforma Sanitária que refletiu na criação do Sistema Único de Saúde (SUS), vale ressaltar que a crítica não é contra o SUS e sim pelo sucateamento do sistema e a falta de investimento público por melhores condições de saúde.

Sabemos que não é de interesse público investir em saúde, educação, moradia, porque quem está no poder quer nos matar. Existe um movimento que nos encurrala para dentro de um “mundo de morte” e tem perdurado durante séculos. Nota-se que o racismo e a pandemia têm se apresentado de forma mutante nas quebradas, ambos são invisíveis, ninguém sabe e ninguém viu, apenas mais um corpo negro na rua caiu. No caso do extermínio de vidas negras, um cai e a vida de tantos outros segue; já dentro desse Estado pandêmico se um cair, derruba outros tantos. É como se todos nós estivéssemos dentro de uma atmosfera em efeito dominó àquele que nos mata, nos transforma em assassinos e nos vemos dentro do território disputando espaço junto aos assassinos sociais.

Algumas medidas foram sugeridas pelo Centro de Estudos Periféricos (CEP-Unifesp), uma delas refere-se à urgência de uma campanha efetiva de apelo social que dialogue com o dialeto das quebradas. Sabemos que a CUFA, em parceria com as lideranças locais, tem cumprido um papel fundamental de dar assistência e orientação às famílias vulneráveis. Esse trabalho só foi intensificado devido ao aumento do número de doações após o avanço da Covid-19 nas periferias.

Vale ressaltar que, nas favelas sempre existiram pessoas ou organizações internas que auxiliam as famílias necessitadas, porém o processo de capitação de doações é muito dificultoso. A ideia aqui não é promover o populismo assistencial, precisamos criar mecanismos educacionais estruturantes de base para que a população preta e periférica se conscientize, visto que os códigos do Estado não dialogam com a quebrada. Com isso, suas experiências e seus gestos expressos nesses corpos calejados que trazem consigo uma escrita da voz, clamam por socorro entre becos e vielas.

Enfim, nossa atualidade, traz consigo as lutas contra a escravatura da fome, do racismo, do Estado Genocida e da pandemia que juntos têm nos emudecido e os ecos por justiça contra os atos de racismo nos Estados Unidos e no Brasil, vibram em nossos corações, é por essas e outras que convoco os manos e as minas de responsa para traficar informação, a fim de (re)criarmos uma política de resistência e de empoderamento para salvar vidas.

Cristiane Correia Dias
Colunista

*Cristiane Dias, B-girl Cris, Mestra em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo- FEUSP, ativista da cultura Hip-Hop e dançarina de breaking.

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