DIA NACIONAL DE TEREZA DE BENGUELA E DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

Comemorado em 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha marcam a resistência antirracista e lutas enfrentadas pelas mulheres negras e indígenas no Brasil e no mundo

Em 25 de julho de 1992, grupos femininos negros de 32 países da América Latina e do Caribe se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, tendo como foco central a discussão sobre o machismo, o racismo e quais estratégias poderiam ser utilizadas para combatê-los. 

Esse encontro ficou marcado na história e foi reconhecido pela ONU como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e da Diáspora, celebrado em 25 de julho.

Passados 28 anos dessa reunião, e também no contexto do 5º aniversário da Década Internacional dos Afrodescendentes, é preciso relembrar a história de luta e conquistas dessas mulheres, mas também jogar luz nos desafios que elas enfrentam até hoje como resultado de séculos de discriminação, opressão e desigualdade social.

“Precisamos afirmar ao mundo que é urgente e necessária uma nova ordem”, diz Valdecir Nascimento, do Instituto Odara da Mulher Negra, em Salvador (BA). “Ninguém acredita que as mulheres negras podem pensar em uma estratégia de transformação do mundo, pois as pessoas continuam com uma narrativa e um imaginário da negra como coitada, como alguém sem instrução. Essa é uma lógica de negação que não cabe mais, e o nosso desafio é convencer as cabeças e os corpos de quem tem privilégios que não é possível sustentar isso para a eternidade, destaca Nascimento”.

DIA NACIONAL DE TEREZA DE BENGUELA E DA MULHER NEGRA

No Brasil, desde 2014 quando a então presidenta Dilma Rousseff instituiu a Lei nº 12.987 , também é celebrado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Importante líder quilombola no século 18, Tereza de Benguela comandou o quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, que abrigava cerca de 300 pessoas, incluindo negros, índios e mestiço fugitivos do trabalho forçado nas minas de ouro e pedras preciosas, entre 1730 e 1795, segundo informações da Fundação Perseu Abramo. No entanto, lacunas histórias deixam incertezas tanto em relação ao local do seu nascimento ter sido no Brasil ou África; quanto sobre a sua liderança ter iniciado após a morte do seu companheiro, José Piolho, ou até mesmo antes, na qual é reconhecida como rainha do quilombo.

DESIGUALDE E VIOLÊNCIA

 

O abismo que separa mulheres negras de outras camadas da sociedade no acesso a serviços básicos e oportunidades no Brasil são evidenciados pelos dados divulgados este ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Os números de 2019 revelam, por exemplo, que as mulheres negras têm uma média salarial 56% menor que a de homens brancos – 3.138 reais para eles e 1.394 reais para elas. Além disso, os lares chefiados exclusivamente por mães solo e negras estão entre os mais vulneráveis: 13,9% não possui abastecimento de água e mais de 40% está sem tratamento de esgoto.

Em pelos menos 11% desses lares há um adensamento excessivo dentro das casas. Essa situação é particularmente alarmante no contexto atual de pandemia da COVID-19, em que higiene e distanciamento físico são imprescindíveis para a prevenção do contágio. 

“Estamos vivendo um momento importante, no qual enfrentamos uma emergência sanitária sem precedentes”, diz Dominique Day, vice-presidente do Grupo de Trabalho da ONU sobre Afrodescendentes. “O que as mulheres negras exigem é nada além de justiça social, justiça racial e igualdade de oportunidades e qualidade de vida para si, para seus filhos, suas comunidades”.

Assim como os dados sobre a disseminação do vírus da COVID-19 no país, os números da violência doméstica nesse período também podem estar subnotificados.

Diante disso, diversas organizações e o governo federal têm lançado campanhas sistemáticas de conscientização, enfatizando os canais de apoio — como o Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência.

Segundo dados do governo, em abril deste ano, no ápice do período de distanciamento social, a central registrou um aumento de 35,9% no relato de casos de violência contra mulher, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Além de serem as mais afetadas nos casos de agressão doméstica, mulheres negras também estão mais suscetíveis a sofrer outros tipos de violência: segundo o Atlas da Violência 2019, 60% de todas as mulheres assassinadas no Brasil eram negras.

“Nesse momento em que as pessoas estão falando sobre como realmente desmantelar o racismo sistêmico, temos que pensar nas intersecções que ocasionam a misoginia, a homofobia e todo tipo de vulnerabilidade em nossas vidas”, afirma Dominique Day.

Para que essas mudanças ocorram, é preciso empoderar mulheres negras como tomadoras de
decisão na sociedade, de modo que elas deixem de ocupar apenas o campo de beneficiárias de políticas públicas e ocupem também o campo da articulação — algo que ainda está longe de se refletir nos números.

O relatório Dívidas de Igualdade, publicado em 2018 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), mostra que em alguns países da região o índice de representatividade de mulheres afrodescendentes entre os legisladores dos parlamentos nacionais não chega a 1% em países como Colômbia, Costa Rica e Uruguai e Venezuela. Os números também são extremamente baixos em Brasil (1,3%), Peru (2,3%) e Equador (3,6%).

Para Valdecir Nascimento, não existe mais espaço para a omissão. “É hora de quem acredita e apoia os direitos humanos caminhar junto com as mulheres negras, porque aí sim poderemos dizer que estamos construindo um ‘novo normal’ de fato. Como diz a (professora e filósofa norte-americana) Angela Davis, quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, conclui”.

O coordenador-residente da ONU no Brasil, Niky Fabiancic, reforça que as mulheres afro latino-americanas, caribenhas e da diáspora são a chave para pensarmos novos sentidos para democracia, igualdade e justiça social.

PROGRAMAÇÃO ESPECIAL

Ao longo do mês, diversas atividades destacam a simbologia da data por meio de ações e marco de resistência e lutas enfrentadas pelas mulheres negras e indígenas. Durante o mês de julho, a ONU Mulheres Brasil está realizando quatro ações de comunicação e advocacy, alusivas ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e da Diáspora.

A primeira se refere à visibilidade das vozes das mulheres quilombolas sobre o impacto da pandemia de COVID-19 nas comunidades quilombolas, considerando as mais de 5 mil identificadas em mais de 1,6 mil municípios, incluindo cards para as redes sociais com a participação de dez lideranças, das cinco regiões do país. 

A segunda iniciativa está integrada à implementação da estratégia de comunicação e advocacy 
Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, desenvolvida pela ONU Mulheres e entidades nacionais organizadoras da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver.

“Nem cárcere, nem tiro, nem Covid: corpos negros vivos! Mulheres negras e indígenas! Por nós, por todas nós, pelo bem viver!”, é o tema da manifestação organizada pela Marcha de Mulheres Negras de São Paulo que, além de contar com uma programação on-line, irá realizar intervenções de rua com transmissão ao vivo neste sábado (25/07), às 16H00, nas redes sociais do grupo pelo Facebook, Instagram e Canal do Youtube.

 

Já  terceira medida de visibilidade das mulheres negras é por meio de vídeos da vice-presidenta da Costa Rica, Epsy Campbell, e duas especialistas em gênero e empoderamento econômico.

Elas analisam a importância da ferramenta da interseccionalidade para a inclusão econômica de mulheres negras. Os conteúdos foram gravados para o programa regional Ganha-Ganha: Igualdade de Gênero Significa Bons Negócios.

O programa é gerido por ONU Mulheres, Organização Internacional do Trabalho (OIT) e União Europeia em Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Jamaica e Uruguai, e chamam governos e setor privado para reforçar as iniciativas para o empoderamento econômico das mulheres negras.

A quarta e última ação de visibilidade das mulheres negras, alusiva ao Dia Internacional, é a programação de quatro lives “Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030” em tempos de crise e pandemia na plataforma Youtube no Canal Preto, criado pela parceria existente entre o Ministério Público do Trabalho, OIT e ONU Mulheres.

Entre 30 de julho e 20 de agosto, às quintas-feiras, das 10h às 12h, os temas Racismo e Economia, Racismo e Políticas de Assistência Social, Racismo e Saúde e Racismo e Territórios Negros serão articulados por integrantes do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, especialistas e apoiadoras públicas: a embaixadora da ONU Mulheres Brasil, Camila Pitanga, e as defensoras dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil Kenia Maria e Taís Araújo.

Festival Latinidades

A 13ª edição do Festival Latinidades reúne até segunda-feira (27/07) diversas atividades gratuitas com transmissão pelo canal do Afrolatinas no Youtube.

Apenas duas atividades não acontecerão pelo canal do youtube, são elas: o  Espaço Infantil – Pretinhosidades, que acontece no Instagram da @pretariablackids e o Filme longa-metragem: “Um Dia com Jerusa”, que será exibido no  Canal Odun Filmes na Vímeo. (endereço e senha serão disponibilizados no nosso Instagram no dia da exibição.

A programação completa está disponível no site e nos destaques do instagram.

Fontes e Imagens: Divulgação

Acompanhe as nossas publicações no site e redes sociais. Contamos com o seu apoio, compartilhe os nossos conteúdos ou contribua conosco para continuarmos gerando conteúdos para vocês no Apoia.se! Caso  não possa nos  apoiar mensalmente, você pode contribuir com qualquer valor efetuando um depósito para o Sala Secreta 3S no Banco do Brasil  | Agência: 6966-3  | Conta Corrente: 21.127-3 | CNPJ: 36.126.051/0001-01 

Nosso Muito Obrigado, equipe Sala Secreta!
Para mais informações, envie  email para: 
imprensa@salasecreta3s.com

⠀⠀

Deixe sua resposta aqui