BRASIL PARALELO: CONTRADIÇÕES DE UM GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL

Nesta quarta-feira 22 de abril, comemoramos 520 anos do Descobrimento do Brasil e para celebrar no combate dos que insistem em deturpar a nossa história, o colunista Sidnei Rodrigues destaca algumas desinformações do livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch

por Sidnei Rodrigues de Andrade*

Salve, parceiros!

Nesta quarta-feira 22 de abril, comemoramos 520 anos do Descobrimento do Brasil, e para celebrar resolvi analisar e apontar algumas desinformações do livro: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch, Editora Globo Livros.

Escutei muitas críticas a essa obra literária de pesquisa jornalística de entretenimento ideológico político, lançado em agosto de 2011. Afinal de contas, porquê todos estão abordando questões da história do Brasil, em um cenário socioeducacional e cultural extremamente polarizado pela esquerda e direita política?

Logo, aproveito para esclarecer que não tenho hábito de dar spoilers, pelo menos não abertamente na web, rs. Então, antes que me chame de “estraga prazer”, alerto: não leia a coluna até o final, pois vai ter spoiler!

Minha sugestão é que leia o livro e volte, assim não estrago sua experiência de leitura e ampliamos o debate, já que exponho aqui minha opinião. E caso discorde, por favor, faça seu comentário.

Os debates em torno do livro teve início nas principais mídias sociais, dentre elas Facebook, Twitter e Instagram, se estendendo as rodas de conversas do mundo real.

 Amplamente divulgado no mundo digital, por Youtubers da extrema direita brasileira, a obra publicada pelas editoras Leya e Globo livros, já vendeu  aproximadamente 1 milhão de exemplares em todo território nacional, desde o seu lançamento. Idealizador da obra, o jornalista Leandro Narloch que conta com passagens por grandes veículos de comunicação, destacou:

“Este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, como o daqueles historiadores, e sim uma provocação”. (NARLOCH, 2019. p.17).

Vamos aos fatos: O autor-jornalista elaborou um conteúdo que não contém numa contribuição dos especialistas em ciências sociais e humanas, se valendo de pesquisas apenas com fontes no exterior. Qual a razão de não terem sido feitas consultas prévias aos especialistas em história do Brasil?  Já na capa do livro, algo chama minha atenção: “edição comemorativa de 1 milhão de exemplares vendidos”.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),  há 210 milhões de pessoas em 27 estados da república federativa do Brasil. Fiquei refletindo se esses  milhares de leitores validam a obra, e todos argumentos de  Narloch, sem ao menos procurar e consultar outras fontes de informações fidedignas e confiáveis para compreender, interpretar e concluir ao consenso?

A história mundial não é uma narrativa linear, é um elemento de análise sociocultural e educacional circular que será uma interpretação de vários itens informacionais num caráter interdisciplinares.

A grande falha do sistema educacional brasileiro, e tudo que é produzindo nas principais instituições de ensino superior,  não abrange  na sua totalidade toda as demandas socioeducacional e cultural, ao conteúdo programático escolar, sendo o Estado responsável por 15% desta entrega. Um exemplo a ser citado, é o “desconhecimento” de algumas instituições escolares quanto a aplicação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatória a inclusão da temática  História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no currículo do ensino fundamental e médio das escolas públicas e privadas.

Dividido em 12 capítulos, o livro narra desde a história da comunidade indígena até o processo político, supostamente interpretado pelo autor-jornalista, de Comunismo.

Sendo assim, minhas análises estão direcionadas aos pontos que considero mais polêmicos e contraditórios, me atendando a dois nichos culturais: a comunidade indígena e negra afro-brasileira.  Por que, Narloch direciona seus ataques e ofensas as essas comunidades, reverberando o discurso da extrema direita brasileira?

A seguir, a interpretação da narrativa sobre a história do Brasil  sob a ótica histórica e social do autor-jornalista:

O processo de descobrimento do Brasil, foi bem tranquilo e pacífico entre a comunidade indígena brasileira e colonizadores europeus português, foram comemorar a festa de comunhão de bem. Depois daquela situação de encontro de civilizações os assuntos e os interesses iam transformar ao longo do tempo, observem atentamente esses dois argumentos:

“As festas e bebedeiras de índios e brancos mostram que não houve só tragédias e conflitos durante aqueles choques das civilizações”. (NARLOCH, 2019, p.25)

“Quem iniciou o processo de extermínio da comunidade indígena brasileira, foram os próprios índios”. (NARCLOCH, 2019, p.26 -32).

Os próprios índios autodestruíram sua etnia para se desenvolver como cidadãos brasileiros? Explica que os colonizadores europeus tentaram apaziguar o confronto entre rivalidade das tribos indígenas. Observem nessa citação:

“O extermínio e a escravidão dos índios não seriam possíveis sem o apoio dos próprios índios de tribos inimigas entre si. Eles forneceram o suporte militar às bandeiras”. (NARCLOCH, 2019. p.31).

Os colonizadores europeus foram os principais responsáveis pela civilização do Brasil, e o sujeito índio foi sua própria desgraça socioeconômica e política.

Qualquer cidadão brasileiro que frequentou o ensino fundamental 2 até o ensino médio, sabe que os colonizadores europeus, dente eles espanhóis e portugueses, dizimaram os povos indígenas por todos os continentes que passaram, inclusive no Brasil e América Latina. Isso é fato!

Agora vamos ao capítulo mais polêmico, não só pelos debates nas mídias sociais mas, principalmente, por ter gerado diversas incertezas sobre a contextualização da comunidade negra afro-brasileira:

 “Zumbi continha escravos” (NARLOCH, 2019. p.66)

Se você teve  a oportunidade de estudar ou até mesmo conversar com um pesquisador científico acadêmico ou especialista em História do Brasil, Ciências Sociais e Humanas, sobre o  Quilombos de Palmares, aprendeu que há poucas fontes de informações sobre o assunto. Isso porque, a comunidade negra afro-brasileira do século XV, em especial a de Palmares não era totalmente alfabetizada.  Documentos históricos relatam a visão da classe média dominante, ou seja, das pessoas que tinham acesso ao conhecimento e educação.

Observem essa afirmação que próprio autor-jornalista apresenta:

“Não dá para ter certeza de que a vida no quilombo era assim mesmo, mas os vestígios e o pensamento da época levam a crer que sim”. (NARLOCH, 2019. p.69)

Qual é a falha do autor ao construir essa narrativa argumentativa? As fontes de informações pesquisadas não são de péssima de qualidade, ao contrário possuem um ótimo conteúdo informacional do período colonial brasileiro. Mas, Narloch cometeu  dois erros cruciais:

 1-) escreveu a visão da classe dominante da época;

2-) não consultou um especialista em história do Brasil.

A narrativa do livro foi construída por um conceito bem conhecido pelos pesquisadores acadêmicos científicos: hipóteses.  O dicionário de língua portuguesa Houaiss explica a definição:

“Aquilo que é possível que se verifique ou aconteça tendo certas circunstâncias. Acontecimento tomado como incerto, eventualidade. Teoria provisória e provável, mas ainda não demonstrada (HOUAISS, 2004. p.389).

Um exemplo, bem prático, é quando faço a seguinte afirmação:  todos os seres humanos não gostam de educação. Para validar o que digo, preciso de uma comprovação e intervenção acadêmica e cientifica, do contrário estou me valendo de uma meia-verdade e silogismo. É preciso um método cientifico para diferenciar um fato do senso comum, para que a conclusão da narrativa não nos leve a uma dicotomia: verdade e  mentira.

Agora que você chegou até aqui, compreendendo os argumentos contraditórios apresentados no livro, posso compartilhar o que acredito ser a origem deste discurso ideológico que norteia a extrema direita brasileira, o chamado Brasil Paralelo. Sim, meu caro leitor, eis a principal instituição socioeconômica e política instaurada e que insiste em manipular a nossas vidas e história. E para que tire sua própria conclusão, recomendo que assista a entrevista do especialista em história, Prof. Dr. Fernando Nicolazzi (UFRGS) para, o canal do YouTube Historiar-se:

Me despeço agradecendo e torcendo para que, mais do que nunca, possamos seguir no combate, nos valendo das melhores estratégias: Educação, Conhecimento e Ciência.

Abraço, até a próxima!

Sidnei Rodrigues de Andrade
Colunista

*Sidnei Rodrigues de Andrade – Bibliotecário, apaixonado pelo universo da literatura, Co-autor do livro Despertar do Mestre e colunista do Sala Secreta, Blog da Monitoria Cientifica FaBCi ( Admiráveis Bibliotecas Comunitárias) e Bibliothiking. Nas redes sociais, administrada as páginas do Facebook: Biblioteconomia –FESPSP, Atividades Complementares FaBCi – FESPSP e co-administrada a Rede de Pesquisador@s das Literaturas de autoria Negra e Afro-Brasileira.

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