A ARTE LIBERTÁRIA DE MÔNICA NADOR

Nesta entrevista, que completa o Especial Mulheres De Luta,  a artista plástica conta como tem cruzado fronteiras para fazer da sua arte um poderoso instrumento de inclusão social e do empoderamento feminino



Por Andrea Coelho

Inquieta e determinada a fazer da sua arte um instrumento de transformação social, a artista plástica Mônica Nador decidiu cruzar a ponte da “cidade formal”, como gosta de chamar as regiões habitadas pelas classes sociais mais privilegiadas, para viver no Jardim Miriam, bairro na periferia da zona sul de São Paulo. De lá para cá, são 16 anos de dedicação à arte e educação por meio do Jardim Miriam Arte Clube  – JAMAC, escola de artes e espaço cultural idealizado por Mônica , assim que se mudou para o bairro. São inúmeros os cursos profissionalizantes e atividades socioculturais, realizados desde então, conectando moradores, educadores e produtores culturais de diversas regiões da cidade.  

Cruzando fronteiras, Mônica faz o intercâmbio para aproximar o seu fazer artístico ao de realidades tão distintas, pelo Brasil e mundo. Para que, juntos, sigam tecendo e perpetuando suas histórias, ora pintadas por tintas e estêncil; registradas pela sétima arte ou nas salas de aulas, descortinando o legado do poder transformador do que os une: o amor pela arte de educar.

Confira a seguir, a entrevista de Mônica Nador, para o Sala Secreta:

Sala Secreta – A arte conectou os seus propósitos ao de muitas pessoas e o seu  legado no JAMAC tem sido perpetuado, democratizando o acesso à arte.  O que você tem visto, e aprendido, neste universo de possibilidades?

Mônica Nador –  A arte  vinculada à educação é potencializadora de transformações, e vice-versa. Acredito que não há uma separação real, e sim artificial criada pelo status quo. É preciso insistir no uso da arte como instrumento de inclusão social, unindo as pessoas para criarem algo em comum e, até mesmo, como forma de evitar a alienação.

SS – Como surgiu a ideia de criar o JAMAC?

MN – Meu trabalho sempre esteve voltado para as comunidades. E conheci o bairro quando trabalhei em uma ONG da região, por conta do meu projeto de mestrado “Paredes Pinturas”, onde transformava as fachadas e casas das comunidades em grandes murais de arte. Passado um tempo, em 2004, decidi morar no bairro e criar o JAMAC. Foi nessa época que, por intermédio de um amigo em comum, conheci o Mauro ( de Castro), professor e ativista cultural do projeto Rádio Poste. No começo houve uma certa “resistência”, mas, nos tornamos grandes amigos, pois ele percebeu que queria trabalhar em prol da comunidade. O Mauro, assim como tantas outras pessoas queridas colaboraram para a concretização do JAMAC.

Mônica Nador durante intervenção artística do projeto “Paredes Pinturas”

SS – Tanto você quanto os moradores se depararam com realidades distintas. Como superaram essas diferenças?

MN –  Na convivência, sempre voltada para o amor e inteligência de tentar entender o outro.

SS – E o que diria para as pessoas que, assim como você, acreditam no poder transformador da educação e cultura?

MN – O potencial educativo da arte é muito importante, e vai além, pois também cuidamos da saúde mental das pessoas. Por exemplo, neste mês, realizamos a oficina Clínica de Educadores, voltada para os professores da rede pública e mediada pela Ana Beatriz, especialista da área. No encontro, realizamos uma roda de conversas e atividades psicopedagógicas, voltada para a saúde e bem-estar destes professores.

Quando vim morar na periferia, comecei a entender melhor, e até mesmo me espantar, com a força do machismo. E hoje, felizmente, posso dizer que estamos em um outro momento: o empoderamento feminino está presente nas margens das cidades”.

SS – Você sofreu, ou ainda sofre, preconceitos por ser mulher, branca e artista?

MN – Hoje não sofro mais no meu meio (artístico). Mas, ainda sofro no dia-a-dia, mesmo que de forma velada, pelo simples fato de ser mulher. Como, por exemplo, quando vou a uma loja de tintas e sou a última a ser atendida. Faço isso há décadas,  mas, é nítida a falta de credibilidade quando  uma mulher vai sozinha a  um lugar “tipicamente masculino”. Porque na “cidade formal”, dos anos 80 e 90, isso não era tão claro para mim no convívio com familiares e  amigos. Mas, é algo muito cultural. Foi nesta época, que vivenciei pela primeira vez esse preconceito, com garoto coreano que estudava na FAAP ( faculdade onde me formei, e depois passei a dar monitoria para os alunos). Ele não falava comigo, tampouco deixava eu me aproximar para  orientá-lo. Ao longo do semestre, ele  percebeu que eu, uma mulher, era fonte da informação que ele precisava, e “desencantou” (risos).  

SS – Qual a sua percepção quanto ao machismo e feminismo, em especial nas periferias. Há uma grande participação de mulheres nas oficinas promovidas pelo JAMAC??

MN – Quando vim morar aqui na periferia, comecei a entender melhor, e até mesmo me espantar, com a força do machismo. Um exemplo foi quando, em 2005, viajei para França para participar de uma exposição e levei quatro garotos do JAMAC. Chegando lá, muitas pessoas questionaram a ausência de meninas no nosso grupo, e expliquei que nenhuma delas tiveram a autorização dos pais para viajar.  Imagina, não tinha essa de menina viajar. Menina tem que ficar em casa, protegida, imaculada e pronta para casar!

E hoje, felizmente, posso dizer que estamos em um outro momento, na qual o feminismo está presente na margem das cidades. E temos, cada vez mais, exemplos desse empoderamento: a Daniela (Vidueiros) que, lá em 2005 podia ter ido viajado com a gente e, hoje dá aula de estêncil e a Thais (Scabio), cineasta que trabalhou comigo e promove oficinas de cinema, são exemplos de mulheres empoderadas, que não se deixam dominar.

“Outras línguas”- exposição “Somos Muitos: experimentos sobre coletividade”

“É preciso insistir no uso da arte como instrumento de inclusão social, unindo as pessoas para criarem algo em comum e, até mesmo, como forma de evitar a alienação”.

Cada Estampa uma história

SS – Como viver de cultura, em um país que negligência direitos básicos como saúde, alimentação e educação. Como o JAMAC tem se mantido?

MN – A cultura sempre esteve presente na minha vida, principalmente, pela influência do meu pai que era médico, mas também, pintava e participava ativamente do circuito cultural no interior de São Paulo. Então, nunca foi difícil optar pela arte, mas, confesso que é difícil ser uma trabalhadora da cultura, tal qual a grande maioria dos trabalhadores brasileiros, falta recursos para fazer mais e viver com conforto. E mesmo com as dificuldades, me sinto privilegiada por viver de cultura, mesmo sabendo que não sou boa em vender essa arte por meios convencionais.

Sempre sobrevivi das minhas exposições e venda dos meus trabalhos que, também, ajudam a manter o JAMAC. Por um tempo, ainda tínhamos verbas por meio de editais, mas, hoje em dia quase não tem, então nem contamos com essa opção.

Ao longo desses anos, foram centenas de pessoas beneficiadas de forma direta e indireta. Seja pelas oficinas e cursos profissionalizantes ou pelas intervenções artísticas que realizamos, pintando algumas casas da comunidade.  É isso que nos une e potencializa o nosso trabalho!


JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube

Onde: Rua Maria Balades Corrêa, nº 8 – Jd Miriam – São Paulo
Contatos: Tel.: +55 (11) 5626-9720 | email: ofinasjamac@gmail.com

Redes Sociais
Face: jamacarteclube/
Insta: @jardim.miriam.arte.clube

Fotos: arquivo pessoal/divulgação

Vídeos: Cavalo Marinho Audiovisual

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