Antes do boom, a base: o nascimento do rap nacional
Antes da consolidação do rap brasileiro nos anos 90, uma geração pioneira abriu caminhos com criatividade, denúncia e identidade. Relembre 10 faixas fundamentais da década de 80.
Quando tudo isso aqui era mato …
Nas décadas de 70 e 80, os bailes black’s moldavam a cultura urbana e musical, com influências diretas do Funk, Soul, R&B e Disco, as equipes de baile comandavam as festas e abriam caminhos para novas sonoridades.
Nesse contexto surgiu o hip hop em meados da década de 80, através dos bailes e festas que aconteciam nas periferias e centros urbanos mas também na circulação de fitas demo e coletâneas de discos que criavam uma atmosfera cultural e efervescente.
Em São Paulo, especialmente nas quebradas e no centro, alguns encontros começavam a fortalecer a identidade da cultura hip hop brasileira, destacando-se as reuniões que aconteceram no metrô São Bento e a Roosevelt, ambas no centro da capital paulista.
“A contradição entre ser uma cultura de rua e ser uma cultura de mercado não é nova: atravessa a história do rap e faz parte de sua constituição mais elementar. O rap nos ensina que a música está no mundo: é um instrumento de transformação da realidade e é também transformado por ela””
Trecho do livro “Se liga no som: As transformações do rap no Brasil” (2015) de Ricado Teperman – Editora Claro Enigma
Bem antes da indústria e do mercado olharem para o rap como um produto rentável, artistas independentes já ocupavam espaços mostrando sua arte, com entretenimento e também inconformismo social denunciando desigualdades e preconceitos, moldando os movimentos culturais.
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Com a perspectiva de registrar esse grandes momento, listamos 10 músicas essenciais que vai te ajudar a entender esse período histórico e marcante do nascimento do rap no Brasil.
Neste vídeo você pode ouvir alguns dos maiores clássicos do rap nacional que vamos citar aqui
Os registros audiovisuais do rap nacional dos anos 80 são escassos e muitas vezes não possuem uploads oficiais. Por isso, utilizamos um compilado histórico que reúne essas faixas em um único material.
10 músicas que marcaram o início do Rap no Brasil
Thaide & DJ Hum – Corpo Fechado (1988)
Pioneirismo absoluto no rap paulista, trazendo narrativa urbana e identidade própria.
“Se mexer com a minha mãe, meu DJ ou minha mina você pode estar ciente sua sorte está perdida”
trecho da música “Corpo Fechado” de Thaide & DJ Hum (1988)
Uma das faixas mais emblemáticas do início do rap nacional, a música “Corpo Fechado” simboliza o pioneirismo de Thaide & DJ Hum. Com narrativa urbana e referências à proteção espiritual, a música traduz o cotidiano da periferia com autenticidade. A letra fala sobre autoestima e valorização de ser quem você é, sem amarras e limites.
Mais do que um som, é um marco na construção de identidade do rap brasileiro, simbolizou o início de letras mais conscientes e menos irreverentes que circulavam naquele momento.
Racionais MC’s – Pânico Na Zona Sul (1988)
Uma das primeiras denúncias diretas da violência policial e das tensões sociais nas periferias. “Pânico na Zona Sul” já antecipava o impacto que os Racionais MC’s teriam nos anos seguintes. A música trouxe a vivência real dos jovens paulistanos e tudo que norteava suas vidas a época. Uma mistura de tensão, ódio, realismo e reivindicação de direitos humanos. A faixa foi o ‘start’ para muitos jovens da periferia não silenciar diante de atrocidades e violência que acontecia naquele momento. Algo muito necessário, Racionais proclamou ali uma comunicação crua, direta e necessária com as ruas.
Racionais MC’s – Tempos Difíceis (1988)
Retrato cru da realidade social, mostrando o DNA do grupo que mudaria o rap nacional. Edi Rock transmitiu nessa música um olhar panorâmico de tudo que estava acontecendo no mundo, a composição fala de temas bem atuais como guerras, fome, miséria, violência e preconceito.
Outra peça fundamental do início dos Racionais MC’s, a faixa reforça o compromisso do grupo com a realidade social brasileira.
Aqui, o rap já se apresentava como crônica da sobrevivência.
Pepeu – Nomes de Meninas (1988)
Exemplo de fase experimental do rap brasileiro, Pepeu traz influências diretas do electro e do funk norte americano. A estrutura em que a música foi construída mostra a versatilidade e inteligência de Pepeu que simula uma batalha entre dois MC’s utilizando nomes de meninas em suas rimas. O rapper era muito aclamado nos bailes e além dessa música tinha outro sucesso chamado “P de Pepeu”.
Ndee Naldinho – Melô da Lagartixa (1988/89)
Com uma pegada irreverente e linguagem popular, a faixa ganhou espaço nos bailes e festas mostrando o lado mais descontraído do início do rap. Ndee Naldinho junto com Pepeu e Thaide eram os maiores MC’s da época e circulavam nas festas de rap cantando suas músicas que eram sucessos. Ndee em 1988 saiu na coletânea ‘O Som das Ruas’, lançado pela equipe de baile Chic Show.
A música nasceu de forma espontânea, com Naldinho versando em cima da base do DJ Innovator, que se apresentava juntamente com o rapper norte-americano Chubb Rock.
Além da faixa “Melô da Lagartixa”, outras músicas do rapper fizeram muito sucesso ao longo de sua carreira, podemos citar as músicas “E Essa Mulher de Quem é”, “Melô do Corinthians”, “O Quinto Vigia”, “Dia Dia de Ladrão” e “O Povo da Periferia”, considerado um dos maiores hitmakers do Rap Nacional.

Black Juniors – Mais Que Linda Estás (1984)
Uma das primeiras aproximações entre música black brasileira e elementos do rap. Nesse momento o rap ainda não estava consolidado mas já havia elementos falados e estética da música black nesse período.
Sua projeção foi massiva, tornando-se o maior hit da febre da dança break naquele momento no Brasil, abrindo portas ao grupo em programas de TV e na grande mídia. O break naquele momento se tornava a dança do momento aparecendo até mesmo na novela Partido Alto (1984) da Rede Globo de Televisão.
O grupo lançou o LP chamado “Break” pela gravadora Young/RGE, com produção de Mister Sam, era composto por quatro integrantes, Frank Bruno, Edi, Mano e Sergio, sendo apadrinhados por Nelson Triunfo.
Um dos primeiros passos na fusão entre soul, funk e o que viria a ser o rap nacional, podemos considerar o Black Juniors uma referência do que estava por vir nos anos seguintes.
A música se tornou um hino para os amantes da cultura Hip Hop e ao longo de décadas manteve sua relevância, sendo regravada por artistas como Emicida, Xis e Kamau.
Mr. Theo – Cerveja (1987)
Faixa com pegada descontraída que mostra o lado mais popular e acessível do início do rap. Com um tom leve, “Cerveja” circulou nas festas animando os bailes, assim como o Melô da Lagartixa de Ndee era peça frequente nos toca discos e se tornou bem popular naquele período.
A faixa saiu na coletânea “A Ousadia do Rap”, pela gravadora Kaskatas e retrata um personagem que passa por uma desilusão amorosa frequentando bares e tendo a cerveja como escape para superar o fim da relação mas de uma forma descontraída e bem humorada.
A música é uma versão de “Go See the Doctor” do rapper Kool Moe Dee, de 1986, o rapper não traduziu a música e sim usou da melodia e flow do norte-americano para compor sua letra.
MC Jack – Centro da Cidade (1988)
Narrativa urbana que retrata o cotidiano do centro de São Paulo, um retrato do cenário que MC Jack descreveu muito bem em seus versos.
“Onde é a Praça da Sé? Onde está a bolinha?
Um jogo de azar, por incrível que pareça, você nunca vai ganhar
Trombadinhas, trombadões, roubando o que podem”trecho da música “Centro da Cidade” de MC Jack (1988)
A música saiu na coletânea Hip Hop Cultura de Rua em 1988, o primeiro álbum dedicado exclusivamente ao rap nacional.
Uma fotografia sonora da vida nas ruas do que os jovens podiam visualizar naquele momento. MC Jack se torna um cronista de tudo que ele vê acontecendo no centro da cidade, entre pequenos furtos, pessoas com placas comprando ouro, jogos de azar, a famosa Praça da Sé e outras curiosidades do centro de São Paulo.
Principais coletâneas de rap nacional lançadas na década de 80

Sharylaine – Nossos Dias (1989)
Sharylaine representa a força e a resistência feminina desde o início do rap aqui no Brasil.
“Disseram então que eu não podia cantar / Que para outros grupos era 13 dias / Ah, não ligue meu bem, que isto é pro” / “E se tudo se renova, Shareline está toda prova”
trecho da música “Nossos Dias” de Sharylaine (1989)
Considerada a pioneira do rap feminino no Brasil, iniciou sua trajetória no grupo Rap Girls, fundado por ela em 1986, primeiro grupo exclusivamente de mulheres no rap e foi na estação São Bento como B.Girl que deu seus primeiros passos na cultura antes de assumir os microfones como MC.
Em 1988, participou da histórica coletânea Consciência Black, vol. 1 com a faixa “Saudade”.
Os Metralhas – Rap da Abolição (1988)
Com forte discurso político e racial, a faixa conecta o rap à história e à luta da população negra no Brasil.
A geração que não pensa, que não sabe o que fazer, quando vê a burguesia tomar conta do poder
E eu sei que você pensa que estou ficando louco, talvez o meu futuro seja a corda no pescoçoTrecho da música “Rap da Abolição” de Os Metralhas (1988)
O “Rap da Abolição” é um dos maiores clássicos do rap nacional, faixa lançado pelos irmãos DJ Dri e Lino Krizz em 1989, participaram de programas de televisão como Xou da Xuxa e o Programa da Angélica.
Aqui, o genêro se afirma como ferramenta de consciência e resistência, uma crítica ao racismo estrutural e histórico no Brasil. A faixa fez parte da coletânea “O Som das Ruas”, lançado pela gravadora Epic, selo da CBS, atual Sony Music, idealizado pela equipe de bailes Chic Show liderada por Luizão.
Uma geração que abriu caminhos para o que viria depois
Mais do que músicas, essas faixas representam o nascimento de uma cultura.
Nos anos 80, o rap brasileiro ainda era uma semente – mas ja carregava em suas letras identidade, força , revolta e a consciência que explodiram na década seguinte.
Essa geração abriu caminhos para tudo o que viria depois. Sendo a base que permitiu novos avanços e a explosão do gênero nos anos 90 e a consolidação do rap, como uma forma de expressão da juventude brasileira através da música.
E essa história continua sendo escrita …
Na próxima edição do Radar do Rap, mergulharemos nos anos 90 – a era de ouro do rap nacional. Acompanhe nossas matérias e aguardem que vai vir quente!
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